12 de abril de 2014

Desaprender

Eu queria escrever um texto bem bonito sobre as coisas que eu aprendi. Queria contar sobre as pessoas que conheci nos últimos anos e agora fazem parte dos meus sonhos. Queria explicar que quando as pessoas entram nos meus sonhos eu entendo que ‘agora fazem parte’. Queria contar sobre o que a saudade é capaz de fazer. E sobre o poder da distância de redimensionar as coisas. Queria detalhar todos os sabores deliciosos que experimentei. Queria detalhar minhas descobertas. Queria contar sobre todas as muitas viagens que fiz. Queria em especial falar de uma casinha azul que não sai a minha cabeça. Queria falar que aprendi o que é amar uma pessoa. Talvez até tentasse explicar como fiquei ao mesmo tempo muito seletiva e menos exigente. Mas nada do que eu aprendi valeu o que eu desaprendi. Faz algum tempo que tudo gira em torno de desaprender. Tenho desaprendido muito. Não me surpreendi tanto quanto pode parecer. Cresci ao longo dos meus vinte e muitos anos. Tenho experiências, tenho gestos novos. É claro que aprendi muitas coisas. Mas não mais do que desaprendi. Não sei mais tanta coisa. Estou diariamente em um movimento de me esvaziar, de esquecer o ofício para, quem sabe, recomeçar. Ou só para caminhar mais leve mesmo. Tenho hoje a liberdade de adaptar-me. Esqueci, felizmente, a teimosia de não mudar. Caminho aberta para aprender o que vier. E mais aberta ainda para desaprender o que não me faz bem ou não serve mais. Esqueci que para ser forte preciso parecer forte. Eu não preciso e não pareço. Aprender coisas novas pode fazer de mim uma pessoa esperta, mas hoje me ocorre que desaprender, às vezes, faz de mim uma pessoa melhor.