1 de fevereiro de 2014

Vinte e nove

Passei três longos anos em solidão de alma e companhia. Experimentei o sonho que não sonhei. Viajei, morei sozinha, fui independente em todos os sentidos, troquei de cidade, de turma, de emprego e de nome. Sabe o começar de novo? Tantas coisas aconteceram. Conheci muita gente, muitos lugares e agora consegui entender a distância. Vivi dias e dias tontos entre tanta saudade e tanta novidade. Não sabia se queria mais o passado ou o futuro. Parece clichê, mas entendi que importante mesmo é o presente. Experimentei novos sabores e descobri que novos sabores têm mais a ver com permissões do que oportunidades. Eu precisava viver, precisava me ver, precisava enxergar o mundo, precisava entender. Conheci figuras fantásticas e outras tantas detestáveis. Longe de tudo e de todos eu era exatamente o que parecia ser. A falta de referências me espantou e libertou ao mesmo tempo. E sendo livre decidi me desconstruir. É tão espetacular e assustador ver toda sua vida de fora. É tão tranquilizante se perdoar pelo passado, se perdoar pelo futuro. É impressionante observar como as pessoas cometem sempre os mesmos erros - nos mesmos roteiros - simplesmente porque não aceitam que podem sair deles. De fora é tudo tão simples. A gente ri do que antes doía e aí a gente percebe que cresceu. Cresceu porque se permitiu a distância necessária para julgar sem condenar. Cresceu porque entendeu que o perdão só faz bem mesmo a quem perdoa. O tempo passou e a solidão de companhia acabou. A de alma eu não sei se um dia passa. Por mais que encontre conforto e afinidades, estou sozinha em meu sentir e não há dor nisso, há resignação de quem aprendeu a ser feliz sem cobrar nada de ninguém. Eu recomecei, descobri tudo que gostava e não gostava, queria e não queria, podia e não podia. Agora encerro esse período fazendo tudo que jamais imaginei fazer: largo tudo. Junto o saldo, enorme, de todas as loucuras que não cometi na minha pacata vida e deixo tudo para trás. Vou procurar outros caminhos, outras formas de caminhar. A liberdade é toda minha. Não tenho apoio sincero e isso é um alívio. Se der tudo errado, a culpa é toda minha. Se der tudo certo, também.

4 comentários:

Um Admirador disse...

Maria, por favor, não passa tanto tempo sem postar. Seus textos são lindos e a gente e identifica tanto que até se estranha. 7 meses é muito tempo... muito tempo...

Débora Gomes disse...

senti saudade dos seus textos.
eles sempre dizem algo que tocam fundo aqui dentro, na alma.
um beijo meu.

:) disse...

"É tão espetacular e assustador ver toda sua vida de fora. É tão tranquilizante se perdoar pelo passado, se perdoar pelo futuro."

Uau, aplausos! Lindo D+

Aline Leitão disse...

uma palavra é pouco.
quase chorei rs
carrego as expectativas dos outros e as minhas próprias e isso é pesado demais. vou tentar me livrar disso.

beijo meu.