24 de julho de 2013

Licença

Faz alguns anos que estou em silêncio, totalmente mergulhada em mim mesma. Não escolhi conscientemente isso, mas resolvi abraçar a solidão como uma oportunidade. Lembro Frida ao perceber que sou o assunto que melhor conheço. Conheço todos os meus sentimentos e por isso me respeito com cuidado e carinho. Faço hoje por mim o que ninguém fez, permito-me a primeira pessoa. 
''Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.'' Frida Kahlo

21 de maio de 2013

Fizemos tudo errado


Por Fabrício Carpinejar

Fizemos tudo errado. Não deveríamos ter nos beijado nos primeiros minutos. Não deveríamos ter dormido de conchinha já na primeira noite. Não deveríamos atravessar as madrugadas rindo. Não deveríamos transformar todo abraço em esquina. Não deveríamos denunciar nossos pensamentos, permitir o ciúme, expor os nossos defeitos. Não deveríamos, é o que os amigos me ensinaram. Para conquistar alguém, é obrigatório esconder o jogo, fingir independência, disfarçar o arrebatamento. Falhamos, amor. Somos afoitos, ansiosos, sinceros. Fracassamos no drama, perdemos a concentração. Somos péssimos atores do desejo. Nossa história poderia ser diferente. Eu não deveria ter atendido ao telefone no primeiro toque. Você não deveria ter atendido ao interfone no primeiro chamado. Eu não deveria ter dito que sentia saudade na segunda hora. Você não deveria ter dito que sonhava comigo. Eu não deveria ter pedido em namoro no segundo dia. Você não poderia ter aceitado. Eu não poderia ter mandado flores. Você não deveria ter regado as plantas de minha casa. Eu não deveria ter apresentado meu filho no final de semana. Você não deveria ter tomado um Nescau em nossa segunda noite. Eu não deveria ter deitado em seu colo para assistir tevê. Você não deveria ter me apresentado sua mãe e seu pai na primeira semana. Eu não deveria ter convidado para uma festa do trabalho no terceiro dia. Você não deveria ter deixado um vestido em meu armário. Eu não deveria falar de minha vida de solteiro. Você não deveria descrever seus antigos relacionamentos. Eu não deveria ter separado uma prateleira para colocar suas roupas. Você não deveria ter segurado o guarda-chuva. Eu não deveria abrir a porta do carro e puxar sua cadeira no restaurante. Pecamos, tropeçamos na bondade. Você não deveria ter dito que nunca teve tanta intimidade com alguém. Eu não deveria ter dito que a amava depois da terceira noite. Bem que nos avisaram que seduzir é se aguentar, é se conter, é não demonstrar os próprios sentimentos. Fizemos tudo errado, por isso estamos juntos. Amor é exceção, amor é quebrar as regras.



23 de fevereiro de 2013

Do amor


Chegando na encruzilhada
Eu tive de resolver:
Para a esquerda fui, contigo.
Coração soube escolher!
(Guimarães Rosa)


Amor, eu te peço perdão. Se sempre foi o meu tema favorito, meu anseio, minha busca; foi quando te encontrei de verdade que calei. Fiquei silenciosa diante da experiência linda e imerecida de encontrar o amor. Revi meus conceitos, meus textos e minhas resoluções. A espera me pareceu tão curta, amor. Tu és menos espalhafatoso do que dizem. Realmente há em ti a força alegre que dizem, mas é uma força tranquila, muito tranquila. Descobri que tu tens um jeito misterioso, cuidadoso, sutil e, despudoradamente, simples. Deveria ter anunciado aos quatro cantos que te encontrei. Mas o encontro foi tão surpreendentemente diferente que eu me calei. Como a gente se cala diante de milagres, envolta em uma atmosfera de surpresa, sem acreditar no que essa vendo. E eu te vi, te vejo e me surpreendo, agradeço e me calo. Desculpa, amor, não é ingratidão. É que me parece um segredo inviolável. Parece que as pessoas não vão entender ou não acreditar ou as duas coisas juntas. Então eu guardo com carinho torcendo que eles te recebam um dia com a mesma candura. Porque, amor, eles não acreditam mais. Eles te confundem com tudo, absolutamente tudo. Eternizaram em filmes e livros mentiras a teu respeito e as pessoas passam a vida reclamando que não te encontram. Elas não sabem que estão desejando tudo, menos a ti, amor. Não aceitam segurança, paz, espera, amizade. Não aceitam o amor como o amor é. Se eu contasse, eles também não acreditariam. O mundo anda tão ruim, que as pessoas andam se recusando a coisas boas. Não está fácil por aqui, amor. Mas você existe. E é tão milagrosamente possível. Também tive dúvidas, também desacreditei. Por isso guardo o silêncio do encontro tão desejado, mas julgado tão incerto. Por isso me desculpe, amor, por não ser justa de te escancarar depois de tanto desejá-lo. Ainda vou contar de ti. Um dia, logo. Mas por enquanto não vai embora daqui. Nunca mais, sim?

30 de janeiro de 2013

Começo


Já escrevi uma vez sobre ‘Fim’. Eu gosto de fins. Mais do que isso, às vezes, eu preciso deles. Não encaro com drama, encaro com resignação. Não acho que tudo tenha fim. Acho que algumas coisas são para sempre (mas isso é assunto para outro texto, sim?). Hoje eu reconheço um fim. É um fim secreto. É uma daquelas situações em que você aceitava tanto uma coisa que nem parecia que incomodava mais. Mas aceitar não é concordar. E nem acomodar. Eu decreto fim. Dispenso a loucura. Dispenso mil vezes a mentira, dispenso, dispenso! Dispenso os julgamentos. O fim não me angustia, pelo contrário, o fim me inaugura o novo e me abre uma oportunidade. Fim. Ponto final. Enfim, mais um ciclo se fecha. São tempos de mudanças. Se hoje tenho um fim, hoje tenho também um começo.

16 de janeiro de 2013

Certeza


“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém”. Clarice Lispector

Desde aquele dia nada soou com tanta verdade. Somente nós em um momento íntimo de encontro. Eu não pertenço. Alguém pertence, afinal? Talvez as pessoas estejam absortas demais para se perguntarem. Eu nunca fui de lugar nenhum. Não tenho parte no mundo. Não tenho ídolos. Não me vejo em nenhuma pessoa. Não queria ser ninguém além de mim mesma. Não conheço quem entenda o que eu quero dizer. Não conheço ninguém disposto. Ninguém entende meu tempo. Ninguém sabe meus segredos. Ninguém sabe de mim. Eu não pertenço. É definitivo.