30 de junho de 2012

Esperança


Eu tenho esperança. Tudo bem, todo mundo tem esperança. Mas é que a minha esperança, às vezes, é tão audaciosa que é quase ofensiva. A intenção não é essa. Minha esperança não é somente um sonho romântico, não recuso a realidade ou me iludo. Antes é o último suspiro, a única forma de sobrevivência. É a única coisa que me faz suportar as muitas aflições de todos os dias e ainda conseguir sorrir para o porteiro ao cumprimentá-lo. Quando sorrio para ele estou rindo para mim mesma. Estou me desejando força no meio de todas as coisas ruins que nos cercam. Estou desejando que eu consiga manter a fé ou que alguém me mostre que a justiça é possível, apesar de tudo. Levo a esperança sonhando com o que não vejo, acreditando em quem – talvez - não mereça mais confiança. Não se trata da ingenuidade de quem não pode ver a realidade. Trata-se, na verdade, da generosidade de não se deixar abater. Preciso acreditar para continuar levantando, para continuar sorrindo. É minha forma de viver. Mais do que isso, é minha forma de continuar viva. 

20 de junho de 2012

Sobre ensinar ou aprender


Ela tentou ensiná-lo. Conversou, explicou detalhadamente. Mas ele pareceu não entender. Ela não acreditava que ele não pudesse entender. Ela chamou a atenção, argumentou, fez sinais, encenações, comparações. Tentou convencê-lo a se salvar. Ele não demonstrou preocupação. Ela não aceitava que ele não quisesse ser salvo. Ela gritou, se desesperou, esperneou, chorou, clamou. Ele ignorou. Ela propôs ajudar, ficar ao lado. Ele não aceitou. Ela insistiu, cansou, recuperou as forças, insistiu, insistiu, insistiu. Fez desenhos, mapas, pinturas. Queria que ele conseguisse enxergar o óbvio. Queria que ele aceitasse o óbvio. Queria que ele desejasse o óbvio - ser salvo. Queria que ele quisesse viver. Ele não quis. Ela tentou mais uma vez (era insistente, talvez teimosa). Então fez chantagem, apelou, jogou baixo - queria comovê-lo. Ele não deu atenção. Não importava o quanto ela quisesse, ele não queria. Ela sentiu muito, sofreu, se culpou, se perdoou, aprendeu. Demorou, mas ela aprendeu. Ela aceitou a vontade dele. Ela entendeu que aceitar não é desistir – é aceitar. Ele via desde o princípio, ele entendia, ele sabia. Mas ele não queria. Por fim, ela aprendeu: não se pode ensinar quem não quer aprender. Não se pode salvar quem não quer ser salvo.