30 de janeiro de 2012

Das voltas

Ela caminhava como se fosse voar - rápida e alegremente. Sorriu para as três senhoras com quem cruzou. Sorriso assim de graça. Foi correspondida. Sentia o ar diferente, embora repetisse os passos do dia anterior. Estava leve, leve. Sentia um abrir de portas, um movimento nas coisas, um sopro diferente. Podia ouvir o som da música escrita pelos pombos que repousavam nos fios dos postes. Era poesia pura. Imaginou janelas abertas, luz forte e vontade de sair. Apressou o passo, queria que fosse bonito. Era uma volta, sentia. Ela de volta, eles, ela. Sentia a emoção do retorno, como quando pela janela do ônibus se podem ver os abraços que vai receber na chegada. Então viu um senhor na calçada, que caminhava em sua direção. Um senhor bonito, de terno alinhado, elegante como se estivesse preparado para ela. Ele afastou-se um pouco quando ficaram lado a lado, sorriu um sorriso doce, fez sinal com as mãos para que ela seguisse, assim como cavalheiros de sonhos, e disse: - “pois não, senhorita”. Ela cruzou cativada, com um risinho tímido e sincero. O gesto foi importante, foi o portão de entrada. Entendia que tudo estava de volta e poderia transbordar o reencontro inevitável: a poesia das coisas, a leveza, a esperança, ela mesma. Tudo estava de volta.