8 de setembro de 2012

Possível


Era um fim de tarde fresco quando você me ligou. Eu caminhava apressadamente para casa quando o telefone tocou. Assim que escutei sua voz sabia que alguma coisa diferente acontecia. E me preparei para nossas simplíssimas conversas filosóficas. Como podemos ser tão profundos e tão simples? A intensidade não nos pesa. Pelo menos, não entre nós. Você começa a conversa com a naturalidade da rotina:
- O meu celular está descarregando, então se a ligação cair depois a gente continua a conversa.
-Você não quer me ligar mais tarde?
- Quero, quero sim. Mas eu só queria saber uma coisa antes da ligação cair.
E eu agucei todos os meus sentidos para escutá-lo. Meus ouvidos se abriram para o seu coração aflito e eu estava disposta a, além de ouvir a pergunta, saber a resposta.

- Pode perguntar.

- O amor é possível? (…)

Eu ri um riso de compreensão. Quem liga num dia comum, no meio da rotina sem graça dos adultos e lança tal pergunta? Você não quis saber de emprego ou de fofocas. Você tinha pouco tempo e uma dúvida só: o amor é possível?

Senti certa culpa por não ter te respondido antes que perguntasse, eu precisava ter contato. Mas nunca é tarde e com a mesma naturalidade eu te dou a minha resposta:

- Sim, é possível.

E completo:

- É possível, mas eu não sei o caminho até ele.

Não sei o caminho, pois ele surgiu para mim como crianças desaparecem aos nossos olhos – sorrateiramente. Não consegui saber de onde veio. Expliquei logo para não lhe dar falsas expectativas. Mas isso não importava naquele momento. Saber que era possível bastava.  

A questão não era se o amor existia, ele existe - você sabe, eu sei, nós sabemos. O que você queria saber era se outro tipo de amor existia. Se é possível amar a mesma pessoa com quem queremos dividir o corpo e a alma. Ou mais, se é possível ser amado por essa pessoa. É possível. O ser amado existe, em todos os sentidos. Suspiro de alívio. Confesso, tive tanto medo de isso ser invenção, sabe? Assim como você tem. E não, não existe ilusão nessa afirmação. É possível na realidade, no presente, na rotina, nos desencontros e nas diferenças. Se é eterno? Sobre futuro não sei dizer. Sobre eternidade eu não sei nada. Daqui a muitos anos terei essa resposta. Ou não.

Então você acredita aliviado em saber que não está esperando o impossível. Você acredita porque eu acredito. E eu espero o teu amor como se fosse para mim, com dúvidas e esperanças. Mas, sobretudo com o cuidado de estar atento para não deixá-lo passar e com a distração de estar leve para não deixá-lo pesar. Amar é coisa rara. Ser amado é mais raro ainda. Nossa busca não chegou ao fim, continuamos os mesmos.

Você desligou o telefone e seguimos nossas vidas. Você levou um pouco de esperança e me devolveu um pouco de busca. Estamos no mesmo caminho. É da estrada que precisamos.

15 comentários:

Deyse Batista disse...

Que. Prosa. Linda. Porque eu não vim aqui antes? Olhe que eu não gosto muito de narrativas, mas pra você eu tiro o chapéu, sério mesmo. Tem conteúdo, tem coerência, tem até uma certa magia, eu diria. Vou te acompanhar :)

Beijos.

Anônimo disse...

"O vida é a arte do encontro. Embora haja tantos desencontros na vida."

aline disse...

porque o amor está em tudo, mas nem sempre conseguimos enxergar ou nos sentimos confortáveis com a presença dele.

ps.: eu sou muito esperta, fui aceitar seu comentário e acabei excluindo, não lido bem com tecnologias, me desculpe!

L.C. Junior disse...

Gosto de pensar n importancia do amar, e é claro ser amando devolta, por que se não for assim, não é amor, mas as pessoas não entendem que o amor, ou melhor, o amar, precisa de esforço, não aquele esforço duido, que te cansa e suga as tuas forças, mas aquele de se desprender de coisas, aqele onde alguém sempre precisa ceder em determinado ponto para que o amor continue a existir, e crescer...

é a natureza do amor, ele não vem do nada, ele cresce se for alimentado...

amar é querer fazer feliz a quem se ama, mais do que a si mesmo...

adorei o texto..

j.qualquercoisa disse...

P-O-S-S-I-V-E-L-!-!-!
Obrigado, Maria.

Poetinha Feia disse...

Lindo! Simples, sorrateiro, delicado... Tocou profundamente meu coração!
Também acredito que o amor é possível, alias só acredito que a vida é possível pelo amor que sinto todos os dias!

UM beijo

Be Lins disse...

Adorei tua narrativa de amor possível. Adorei a possibilidade que você abre pro amor.

Lindo!

Antônio LaCarne disse...

absolutamente encantador.

;)

Rick disse...

Porque esse papo de amor, ninguém sabe como, nem quando chegar lá onde ele mora. Um dia, se tiver sorte, a gente passa no seu quintal despercebido, e sem saber, levamos com a gente um pouco desse amor que mora por lá.

Amor é sentir e ponto. Sem mais. Nada importa, absolutamente nada. Além do que você senti.

Lindo texto. Bjws"

Karine Tavares disse...

Teu blog é lindo!Parabéns!
Vem conhecer o meu:

leiakarine.blogspot.com

Alexandre Lucio Fernandes disse...

Lindo. E sutileza do texto é encantador. Ele se desenhou. Os momentos fluiram com leveza. e a esperança se preencheu, embora ainda restasse os obstáculos.

Mas saber que o amor é possível basta sim. É da estrada que necessitamos. A vida cuida do encontro...

Beijo Maria!

Marcianne Morais disse...

Lindo texto Dinha!!! Bjsssss

:) disse...

Como sempre doce!

Bjs
Keila

Maristela Carvalho disse...

É possível, Maria. É sim! Invenção é complicar o amor e não deixa-lo ser.

Um beijo.

Anônimo disse...

Tava sentindo falta...
E vir aqui me faz tão bem!

Beijos, se cuida viu?