29 de maio de 2011

Tempo de Delicadeza

Por Affonso Romano de Sant'Anna

Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras. Sei que viver está cada vez mais dificultoso. Mas talvez por isso mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nesta crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorrem nas esquinas da televisão e do cinema com a vida. Talvez devesse lançar um manifesto pela delicadeza. Drummond dizia: "Sejamos pornográficos, docemente pornográficos". Parece que aceitaram exageradamente seu convite, e a coisa acabou em "grosseiramente pornográficos". Por isso, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinícius de Morais ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense: Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados. Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos. Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos. Já a delicadeza guerrilheira de Guevara era, convenhamos, discutível. Mas mesmo ele, que andou fuzilando pessoas por aí, também andou dizendo: "Endurecer, sem jamais perder a ternura". (...) porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados. (...) Há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. Outras, até o emprego. Há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. Sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. (...) Aquele detestável Bukovski, sendo abominável, no entanto, num poema delicado dizia que gostava dos gatos, porque os gatos tinham estilo. É isso. É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza. A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética. (...) Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem "I love you" arremetem um virótico "Fuck you". Sei que alguém vai dizer que com delicadeza não se tira um MST - com sua foice e fúria - dos prédios ocupados. Mas quem poderá negar que o poder tem sido igualmente indelicado com os pobres deste país há 500 anos? (...) A historiadora Denise Bernuzzi de Sant'Anna anda fazendo entre nós o elogio da lentidão, denunciando a ferocidade da cultura da velocidade. É bom pensar nisso. Pela pressa de viver as pessoas estão esquecendo de viver. Estão todos apressadíssimos indo a lugar nenhum. Curioso. A delicadeza tem a ver com a lentidão. A violência tem a ver com a velocidade. (...)


Sei que vão dizer: "A burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados."


- E eu não sei?


Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

21 comentários:

:) disse...

Você falando de tempo de delicadeza e eu falando sobre o tempo passado!
As duas precisando de um tipo de tempo.
Como dizem "gentileza gera gentileza" e posso dizer que delicadeza gera delicadeza.

Querida, como sempre seu texto me leva para outro mundo, um mundo bem mais doce.

Bjim

SAM disse...

Querida Maria,

Você uniu neste texto todos os elementos que devemos procurar e resgatar para que a tolerância seja uma base forte e ponto fundamental na harmonia interior e exterior a fim de poder modelar e expressar a delicadeza.

Estava com saudades! Beijos com carinho e ótima semana.

Luana Gabriela disse...

Maria, saudades!!
A saudade é uma dor delicada!
Bjos

aaluah disse...

sempre gostei de dizer que penso que a vida deve ser levada com delicadeza...

Mãe da Gi disse...

Lindo Dinha! Principalmente aquela parte que fala que por delicadeza, muitas vezes perdemos até o emprego. Comigo foi assim! Fui delicada, quando deveria ter dado um tapa na cara! kkk É uma arte!

Carol Daimond disse...

Delicadeza, gentileza, gratidão tornaram se artigos de luxo. Esquecemos a vida passando e queremos, na grossura da pele, aquela casca dura que achamos servir de "proteção", atravessar vida sem ver a vida passar, apenas na defensiva, procurando algo que está tão perto... As palavras sutis realmente são artigos de luxo. Resgate já!

Alexandre Fernandes disse...

É pura verdade. Que texto primoroso. Porque nos faz refletir, nos permite olhar para dentro de nós e avaliarmos o que de fato seguimos, e o que tanto precisamos para encontrar os elementos mais preciosos da vida.

Com sutileza. Com delicadeza. Mesmo que crueis, mas uma crueldade sutil, uma delicadeza feroz. Viver é acima de tudo saber dosar, buscar caminhar no ritmo que a vida sugere. Porque esta é a verdade estampada ao redor. Quando trespassamos a própria vida, via nossa impaciência, e nossa pressa de ir, passamos sem ver a paisagem da vida, sem sentir sensações só sentidas na leveza, na calmaria da andança.

Perdemos muito dos encantos, porque nos encantamos em seguir com pressa. Vamos sim ser delicados. E encontrarmos finalmente a dose mais importante da vida: a felicidade.


Que lindo texto mesmo!
Obrigado pela delicadeza. Ensina.
Beijos!

Poetinha Feia disse...

Quanto tempo que não passo por aqui, hein?

Estava saudosa de suas palavras!

Elas ainda ressoam dentro de mim... Bjo!

Juliana Biagi disse...

Está sumida, Maria. Saudades de suas postagens! :)

Ingrid disse...

A delicadeza precisa de tempo. Tempo no relógio.
Uma pena... grande pena

Má Midlej disse...

Que delícia de ler. Sem mais.

Malu disse...

É como diz ALMIR SATER - (...) ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais.(...)
Eu estou na minha fase mais zen que se possa existir.
Apendi com a VIDA tudo aquilo que ela me me deu.
Sou FELIZ.
Sua postagem é bem reflexiva e pertinente.
Muitos precisariam vir por aqui, beber dessas sábias palavras.
Abraços

Amanda Lemos disse...

Muito interessante o Blog,
Gostei muito do que vi por aqui.
E te convido para conhecer meu espaço, caso queira dar uma olhada, seguir..;

http://www.bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já.

aaluah disse...

saudades dos teus escritos

Anônimo disse...

Acho que é tempo de você voltar.


.

Guilherme Navarro disse...

Quando teremos mais do blog?

Renata Fagundes disse...

Por onde você anda moça que eu não conheço?

Descobri seu blog e você sumiu.
Só me resta despejar suas palavras nos lugares que passo, ao colocar a autoria escrevo "Por Maria"..todos querem saber quem é essa Maria
eu só respondo..e agora??

beijo imenso

Diego Cavalcanti disse...

Cadê você, Maria? Saudades dos seus textos... espero que isso indique que você está bem e não está precisando escrever para soltar o que está preso por dentro.

Abraço!

:) disse...

Cade você Maria?

Saudades suas dos seus textos, da sua criatividade
bjs

Iasminne Fortes disse...

Quando li esse texto lembrei de uma música do Chico Buarque, Todo sentimento. Acho que como muitos citaram, somos uma dualidade entre delicadeza e dureza.

Beijos.

Roberta Blá disse...

Flor sinto falta de suas delicadezas. Quando volta?

Beijos