18 de janeiro de 2011

A vizinha

Ela entrou com a altivez do passado. Sentou elegantemente, cruzou as pernas finas. Usava um modelo que marcava a cintura, raridade para quem já passou dos sessenta. Conversou sobre negócios, fofocou graciosamente por alguns instantes e então começou a narrar o passado de glória. Estilista famosa, ela vestia a nata da sociedade da terra da luz. ‘Eram pessoas mais ou menos’, repetiu algumas vezes. O riso claro no canto da boca denunciava a falsa modéstia. ‘Era um tempo de muito luxo’, gabava-se. E além de desenhar, desfilava. Arrumou o corpo esguio na cadeira enquanto me contava isso, fez pose de modelo. Não duvidei. ‘Recebi convites, minha vida poderia ser diferente’; desabafou sorrateiramente. Repentinamente deixou escapar um desalento: ‘eu tive medo, muito medo. Mas não me arrependo’, emendou. Eu entendi. Não podia deixar-se julgar a essa altura da vida. Precisava acreditar que não tinha culpa pelo futuro que escolheu. No passado era bonita, importante e sabida demais para priorizar qualquer coisa além de sua brilhante carreira. Hoje a beleza se foi sem deixar resquícios. Ai, a frivolidade. O luxo passou, o sucesso acabou. Mas ainda tem lembranças e enaltece os gestos do passado. Solta vez ou outra um ‘infelizmente’, que disfarça com um sorriso rápido. ‘Quanta lembrança bonita a senhora tem’, falei sem inveja. Ela adorou. Invejou-se profundamente. Sorri levemente. Despediu-se, colocou as mãos na cintura e foi embora desfilando. Desceu a escada alinhadamente rumo a vida que escolheu naquele lugar estável, bonito e possível: o passado.

10 comentários:

As I Am disse...

Lindo texto Maria!
Que possamos lembrar dos momentos que já se foram desta forma.
Bjos

Luana Gabriela disse...

Esse é o lugar mais seguro de estar! Não assusta.

bjos

Luu disse...

São tantos caminhos a seguir, como ter certeza do qual é o certo? Só temos uma vida pra dar o melhor de nós, e conseguirmos o melhor da vida.

Beijos *:

zierley jardim disse...

ah, se ela conhecesse a bela... bela inteligência!
belo texto, pra toda eternidade (risos).
abraço!

Priscilla Cavazzotto disse...

Sorri levemente. Despediu-se, colocou as mãos na cintura e foi embora desfilando. Desceu a escada alinhadamente rumo a vida que escolheu naquele lugar estável, bonito e possível: o passado.

Adorei!
Gostei daqui e agora fico.
Beijos meus

Poetinha Feia disse...

Nada mais bonito e perfeito como o passado!

Belo texto!!!

Belas palavras!!!

BJ

:) disse...

Morei por muito tempo no passado, mas agora apenas guardo com carinho. Espero poder um dia sair desfilando apenas como uma lembrança!

Bjo Kerida

Desnuda disse...

Minha querida,

Talvez no passado ela tenha pensado tanto no futuro que hoje viva do passado. Acabou esquecendo o presente no passado e condicionada na linha do tempo, sem presente e futuro. Não conseguiu as chaves do presente e o futuro não se abriu. Talvez não lhe tenha restado alternativa mais bonita e confortável para morar. Se ela pensar no futuro hoje talvez viva mal no presente.

Seus textos são muito mais profundos e complexos do que parecem, Maria. Quando os leio fico bastante absorta em minhas divagações....


Estava saudosa! Beijos com carinho.

Roberta Blá disse...

Hipócrita seria aquele que afirma que nunca temeu algo na vida. Que alguém já não deixou de fazer algo pelo simple medo de errar? Depois de já termos vivido tanto, sempre sobra em nossas frases um pertubante, porém, inevitável: " e se ". Não podemos saber o que seria de nossas vidas se tivéssemos feito escolhas diferentes. Ao invés de afundarmos nessa dúvida, melhor é respirar as alegrias que o que vivemos nos proporcionou.

Como sempre cativante, parabéns!
Beijos flor.

Diego Cavalcanti disse...

Talvez, o passado me assuste mais do que o futuro. Fazer escolhas é sempre aterrorizante!

Mais uma vez: belo texto, Maria. Impossível não voltar aqui sempre, para acompanhar o que você escreve. Parabéns!