27 de junho de 2010

Doce

Brincadeira, choradeira,
Pra quem vive uma vida inteira
Mentirinha, falsidade,
Pra quem vive só pela metade

(Palavra Cantada)

Repito inúmeras vezes Quintana: ‘não me constranjo de sentir-me alegre, de amar a vida assim, por mais que ela nos minta’. Sei que nada está tão fácil e fica cada dia mais complicado acreditar. Por isso mesmo sinto que existe uma obrigação de gratidão, de viver bem. Não pense ser um romantismo tão tolo assim, é somente o que escolho ressaltar. É mais escolha que estado. Há sempre coisas ruins e coisas bonitas. Prefiro me prender ao que é belo e tão raro e tão simples. Aos que destilam amargura, nada a dizer. Esperança me atrai mais. Se piegas, peço licença, sempre fui. Conjugo o verbo sempreamar e tenho provas literalmente vivas de que gentileza existe e até doçura, por mais incrível que pareça. Tenho um pouco de dó dos que se julgam sábios por serem frios e espertos por serem falsos. Tenho preguiça de gente assim. E a vida é tão frágil... Não há tempo a perder com quem não sabe brincar de verdade. Toda a melancolia sempre presente acerta o passo na cadência da esperança. E se nada adiantar, eu procuro um espelho e abro um sorriso, assim ele volta para mim. O coração aberto e em paz continua repetindo o mantra: que seja doce, que seja doce, que seja doce...

17 de junho de 2010

Malas prontas

De uma moça guardou aquela mania bonita de surpreender nos detalhes. De um moço aquele abraço de todos os encontros. Guardou de outro a doçura de olhar além do que se vê. E daquele, os silêncios compartilhados. De outra guardou a oração que fizeram de mãos dadas. E ainda as muitas - boas - horas de conversa no telefone. De outro guardou a disposição imediata de ficar junto. Da pequena guardou a alegria de ter com quem brincar. Da outra a lealdade dos que se querem bem. Guardou a admiração, a devoção e o carinho daquela moça bonita. Guardou a sagacidade dos olhos brilhantes de um menino. De outra guardou o humor apaixonante. De certo moço guardou a sintonia viva e palpável. Da doce amiga guardou a risada gostosa das confidências trocadas. De todos guardou as - muitas - confidências. Guardou os planos maquiavélicos daquele moço. Guardou todas as lágrimas - mas antes fez delas poesia. Guardou de outro menino a sorte da pureza do afeto inédito. E uma lista sem fim. Daquela tão importante guardou o dengo de todas as noites. De seu grande amigo guardou o significado de fidelidade - sendo ele o próprio. Guardou ainda - de alguns - o poder de fazer alegria nascer em qualquer lugar. Malas prontas. É hora de partir.

3 de junho de 2010

Livre

Tu és livre, repeti. E se repeti incontáveis vezes foi desejando incontáveis vezes que compreendesses. Mas tu não compreendes. Não consegues acreditar que assim o amo mais e não é por não esperar nada de ti, é antes por esperar a tua verdade. Porque quando o fiz livre, quis demonstrar meu afeto da forma mais legítima possível. Quis que percebesses o quanto me era caro tua satisfação de fazer somente o que te deixa alegre. Quis que soubesses que tua atenção só me serve se for real. E que se daqui a trinta anos fores comprar pão quero ter a certeza que voltaste por vontade própria. Não o deixei livre por falta de importância, deixei antes por te saber inteiro. Tirei de ti o poder de magoar-me. Não limitei teus passos, não fiz condições. Tu tinhas, assim, espaço ilimitado para voar. E para voltar. Gosto de pensar que pessoas livres e inteiras se amam melhor. Não quero tua metade, nem te dou a minha. Mas aceito tua companhia inteira e te outra companhia completa. Se o deixo livre, faço de cada retorno teu uma alegria nova. E ofereço a cada regresso, a minha liberdade toda.