7 de novembro de 2010

Primeira pessoa

Eu estou silêncio. Ando em profunda quietude. Desconstruindo os impossíveis, reaprendendo o possível. De poesia tenho o pão quentinho que alivia o cansaço do dia e me faz divagar que sempre há algo bom, pequeno ou grande. Eu estou ausência. Ando em profundo segredo. Permito-me a poucos. Eu estou resignação. Ando em profunda humildade. Aceito da vida a incerteza dos dias e respiro a esperança de amar sempre melhor daqui a alguns minutos. Eu estou repouso. Ando em profunda calmaria. Mergulhada lá no fundo da alma. Quieta, admiro os fatos surpreendendo-me sem sustos. Eu estou palavras. Ando em profundas citações. Coleciono aforismos e gargalho subjugando máximas. Troco de verdade todos os dias. Essa é a de hoje. Eu estou liberdade. Ando em profundo alívio. Experimento sabores e cores. Tenho companhia. Eu estou cumplicidade. Ando em profundo compartilhar. É carinho e seus sinônimos. Eu estou paciência. Ando em profunda espera. Vai passar. Caminho devagar. Estou voltando. Devagar, devagarzinho. Ando tão diminuitivo. Eu estou sentir. Ando emoções. Que se expandem, ganham proporções absurdas e depois se vão. Quase sempre sem saudades. Eu estou diferenças. Ando me desconhecendo. E me reconhecendo, principalmente. Eu estou saudades. É meu termômetro favorito. E eu me sei amor. Eu estou resiliência. Ando resoluções. E faço-me despedida. Assim seja.

19 de setembro de 2010

O milagre

Por amor a ela.

Há quem diga que não tem cura. Eu duvido. Duvido, quando tanto em nós já foi curado. Duvido, quando foi o improvável que nos descortinou os olhos, quando foi a tristeza que nos ensinou a alegria. O custo é alto - dói - mas liberta. A gente aprende não exatamente a desprezar outras bobagens coisas, mas a dar a elas apenas o tamanho e o espaço que merecem. Deem-nos licença os disparates, temos mais a viver. Temos pressa em viver. Sinto um pouco de pena dos que se fazem sofrer por nada, sinto um pouco de alegria por, mesmo em lágrimas, viver a cura. A vida anda toda intensa. E preenchida por milagres. Milagre mesmo é o amor. É o perdão, é a generosidade. O câncer cura. E nos salva de nós mesmos. Por isso, duvido. Recuso-me a desesperança. E tem sido bom viver assim. De novo a vida reaviva o que realmente importa e nos chama (rápido!), não há vida a perder.

14 de agosto de 2010

Sim

Nosso amor, contaminado de eternidade. (Fernando Pessoa)

Por que demoraste tanto a voltar, moço? Sem interpretações, as palavras são todas tuas. Se foram elas que te levaram, que sejam elas que te recebam. Isso é mais que um texto. É um clichê, cheio de exageros. Quebro o silêncio de anos, ‘cada coisa tem sua hora e cada hora seu cuidado’. Procuro ainda meios de preencher os espaços deixados por ti. Guardo ainda os segredos que não te contei. Guardo a importância de tua presença e o quanto de falta ela me fez. E embora eu tenha ficado sem saber onde colocar as mãos sem você, no teu retorno não tive dúvidas, meu abraço parecia te esperar a despeito do passado. Tu voltas e traz contigo as emoções todas. Assustei-me. Olhei bem. Quão suave foi reconhecer: finalmente tudo mudou, ainda bem não mudou nada! E tu, mesmo sem consentimento, foste retomando um espaço dentro de mim, com teu amor exagerado e tua disposição tão bonita. O que ficou nos deu ainda um lugar de repouso, de alívio, de porto e de partida. Obrigada pelos confetes em formas gentis de amor. Pelas declarações – silenciosas – de amor. Por todas as cores divertidas do teu verso de amor e pelo carinho que, depois de tanto tempo, derrama-se em delicadas formas. Tua pressa de ser meu me faz crer que eternidade é um dia de cada vez. Quero mais da gente, quero tuas soluções simples, tua certeza sem promessas. Quero o passado no lugar certo, quero um presente sem culpas e sem dor. Repito baixo pelos cantos que te amo, torcendo para que sintas. Anseio mais coincidências, mais respostas, outras formas de amar. Quero paz diante da possibilidade de dar a mão a alguém sem perder a liberdade. Quero até quando tiver de ser. Aproveito teu ombro como travesseiro e tua cumplicidade de companhia. Ofereço o coração como abrigo e as coisas mais simples que um amor amigo pode trazer. Faço rimas de minha saudade. E assim caminho: com você em mim. Isso é mais que um texto. É um clichê, cheio de vontade. E é o meu sim.

27 de junho de 2010

Doce

Brincadeira, choradeira,
Pra quem vive uma vida inteira
Mentirinha, falsidade,
Pra quem vive só pela metade

(Palavra Cantada)

Repito inúmeras vezes Quintana: ‘não me constranjo de sentir-me alegre, de amar a vida assim, por mais que ela nos minta’. Sei que nada está tão fácil e fica cada dia mais complicado acreditar. Por isso mesmo sinto que existe uma obrigação de gratidão, de viver bem. Não pense ser um romantismo tão tolo assim, é somente o que escolho ressaltar. É mais escolha que estado. Há sempre coisas ruins e coisas bonitas. Prefiro me prender ao que é belo e tão raro e tão simples. Aos que destilam amargura, nada a dizer. Esperança me atrai mais. Se piegas, peço licença, sempre fui. Conjugo o verbo sempreamar e tenho provas literalmente vivas de que gentileza existe e até doçura, por mais incrível que pareça. Tenho um pouco de dó dos que se julgam sábios por serem frios e espertos por serem falsos. Tenho preguiça de gente assim. E a vida é tão frágil... Não há tempo a perder com quem não sabe brincar de verdade. Toda a melancolia sempre presente acerta o passo na cadência da esperança. E se nada adiantar, eu procuro um espelho e abro um sorriso, assim ele volta para mim. O coração aberto e em paz continua repetindo o mantra: que seja doce, que seja doce, que seja doce...

17 de junho de 2010

Malas prontas

De uma moça guardou aquela mania bonita de surpreender nos detalhes. De um moço aquele abraço de todos os encontros. Guardou de outro a doçura de olhar além do que se vê. E daquele, os silêncios compartilhados. De outra guardou a oração que fizeram de mãos dadas. E ainda as muitas - boas - horas de conversa no telefone. De outro guardou a disposição imediata de ficar junto. Da pequena guardou a alegria de ter com quem brincar. Da outra a lealdade dos que se querem bem. Guardou a admiração, a devoção e o carinho daquela moça bonita. Guardou a sagacidade dos olhos brilhantes de um menino. De outra guardou o humor apaixonante. De certo moço guardou a sintonia viva e palpável. Da doce amiga guardou a risada gostosa das confidências trocadas. De todos guardou as - muitas - confidências. Guardou os planos maquiavélicos daquele moço. Guardou todas as lágrimas - mas antes fez delas poesia. Guardou de outro menino a sorte da pureza do afeto inédito. E uma lista sem fim. Daquela tão importante guardou o dengo de todas as noites. De seu grande amigo guardou o significado de fidelidade - sendo ele o próprio. Guardou ainda - de alguns - o poder de fazer alegria nascer em qualquer lugar. Malas prontas. É hora de partir.

3 de junho de 2010

Livre

Tu és livre, repeti. E se repeti incontáveis vezes foi desejando incontáveis vezes que compreendesses. Mas tu não compreendes. Não consegues acreditar que assim o amo mais e não é por não esperar nada de ti, é antes por esperar a tua verdade. Porque quando o fiz livre, quis demonstrar meu afeto da forma mais legítima possível. Quis que percebesses o quanto me era caro tua satisfação de fazer somente o que te deixa alegre. Quis que soubesses que tua atenção só me serve se for real. E que se daqui a trinta anos fores comprar pão quero ter a certeza que voltaste por vontade própria. Não o deixei livre por falta de importância, deixei antes por te saber inteiro. Tirei de ti o poder de magoar-me. Não limitei teus passos, não fiz condições. Tu tinhas, assim, espaço ilimitado para voar. E para voltar. Gosto de pensar que pessoas livres e inteiras se amam melhor. Não quero tua metade, nem te dou a minha. Mas aceito tua companhia inteira e te outra companhia completa. Se o deixo livre, faço de cada retorno teu uma alegria nova. E ofereço a cada regresso, a minha liberdade toda.

26 de maio de 2010

Lisergia

Na verdade, ela não queria uma solução. Não adiantava o quanto a ensinassem fórmulas para ser feliz. Lê-se, desligar-se do passado que fez e faz tanto mal. Ela amava aquele mal. Vivia uma afeição insana, tão almejada. Apetecia por autoflagelação com disfarces de amor. Todos os dias quando acordava, abraçava o passado. Alimentava, para não deixar morrer. Pensava assim ser persistente. Dizia ser forte por não desistir. De si, desistiu há tempos. Um tempo em que ele não existia e ela sim. Seguia assim então, evitando espelhos. É que sempre teve medo de monstros. No começo eles tinham cara de monstros mesmo. Hoje são mais terríveis. Os monstros têm forma de gente - e por vezes até gente bonita. Mas medo, medo mesmo ela sente do monstro que encontra sempre que acorda, segura o passado nos braços e olha no espelho. Hoje ela sente muito, muito medo dela mesma.

21 de abril de 2010

A quem partiu

A gente diz adeus a quem já partiu? A gente acena e diz ‘foi um prazer’, quando já viraram as costas? A gente afirma que vai ficar tudo bem, quando já está tudo bem? A gente pode dizer ‘foi lindo, sabe?’, quando isso não importa mais?

7 de abril de 2010

Do silêncio

Andava assim, em silêncio profundo. Cada vez com uma certeza maior de que um dia não terá mais volta. Terá mergulhado em vasto segredo, em profunda quietude. Não te assustes, é um silêncio bonito. Uma serenidade pura, um sossego valioso. O mundo anda acabando, dizem. Usa então o tempo para realizar. Diminuiu o tamanho dos sonhos. Hoje eles têm um tamanho possível. Falam, é muito conformada. Incomodam-se, anda muito contente. É que existe uma vontade, um delírio. É que a cada proximidade do fim apressa-se a viver os detalhes. É que sempre são detalhes. Aqueles risos gostosos, que deveriam ser protegidos de tão preciosos. As juras tão belas quanto impossíveis. A esperança de que a vida poesia traga doçura no fim. E quiçá, aquele sonho um dia se realize. Além disso, promete não demorar mais. E também nunca mais fazer promessas.

11 de março de 2010

A chance

"voa coração. ou então arde" (Eugénio de Andrade)

São presenças que vão se tornando lembranças. Abraços que viram poesia no coração ao mesmo tempo em que acontecem. É que ela começa a arrumar as malas e começa por dentro. Faz dias retira excessos e, surpresa, era quase tudo excesso. Foi quem partiu muito depois do que deveria, foi quem voltou quando não mais se fazia necessário. Foi quem apareceu tarde. Foi quem finalmente surgiu. Foi o tempo dedicado. O tempo perdido. Foi. É tempo. De esvaziar o coração para se preparar para o novo, de guardar o que se deve guardar, se é que se pode. Finalmente começa a brilhar uma luz no fim do túnel quando ela já estava gostando do escuro. Ou se acostumando, tanto faz. São palavras que se moldam novas, castas, como jamais existiram. É que tem nas mãos a chance. Uma chance bonita, sonhada. E uma pressa de viver definitiva. Porque a oportunidade tão esperada já espreita muito perto. E agora ela se despe de todos os pretextos e vai.

22 de janeiro de 2010

Quadrilha

Menino, nunca me foi tão difícil escrever-te. Ainda com o papel em minhas mãos, ainda ressentida por não estar na porta esperando você sair do banho, até que superasse a morte de Sabá. Menino, depois de tua presença o gozo da alma se misturou com consternação. Já uma saudade sem tamanho de nós dois. E nem posso imaginar que não venhas mais tarde atrapalhar minha concentração com a autoridade de quem se sabe amado. É que acordei pensando em quem, sem saber, sairia hoje para a vida e encontraria você. Quem distraidamente iria conhecê-lo sem ainda compreender a dimensão de tal encontro. As pessoas estão sempre tão distraídas... Lembrei o dia em que cautela era o assunto e os olhos se encontraram rindo em cumplicidade vadia. Encontramo-nos em ausência total de cautela, nos permitimos antes do tempo, fomos mais amigos do que deveríamos e não nos devemos nada. Vou confiar que nosso surto de gente grande inclua um futuro de tardes mais livres e mais unidas. Que o nosso ir embora signifique o caminho a nós, outra vez. Temos tanto por amar. Guarda as palavras da madrugada, lembra os desejos. Não foi coincidência, menino. “Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser”. Os mesmos livros, os mesmos autores, as mesmas vidas, os mesmos amores. Vou juntar-me a ti no teu plano maquiavélico mais terno do mundo e, enquanto tu provas que eu sou possível, te faço o mesmo. No final a nossa quadrilha será outra. Tens minha lealdade, na nossa bonita e luxuosa liberdade insana. Há vida, menino. Vamos viver. No mais, tu sejas feliz todos os dias, sim? É uma ordem.

1 de janeiro de 2010

Começo

"Quem foi que assim nos fascinou para que tivéssemos um ar de despedida em tudo que fazemos?"


(Rainer Rilke)


Estava inebriada. Cambaleavam todas as loucuras sonhadas. Estava em sonhos. Eram possíveis. Fazia de seu presente, lembrança. Fazia das lembranças, presentes. Seguia entre sonho e realidade. Brincava, obedecendo ao poeta. ‘Um dia serei feliz? Sim, mas não há de ser já: A Eternidade está longe, Brinca de tempo-será.’ Brincava com a astúcia de quem conhece a dor, de quem sabe que tudo que a gente quer passa. Que esperar é quase sinônimo de superação. E que amor e liberdade são sinônimos, fora do dicionário. Que o único alívio é um carinho. Que existem tragédias, romances, drama, comédia, mas nada disso de forma independente. Que somos tantas faces, que somos tão possíveis. Que não há ninguém que nos impeça e nos permita mais do que nós mesmos. Que qualquer coisa só nos magoa uma vez de surpresa, o resto é escolha. Que qualquer silêncio é melhor que uma palavra doída. E que nenhuma palavra é melhor que um abraço bonito. Que quem fala de amor carrega mais esperança que certezas. E que utopia é acreditar que amor é ilusão e mesmo assim se pode ser feliz. Que as únicas coisas de que se necessita são indissociáveis do corpo. E nenhuma pessoa, nenhum lugar ou nenhuma situação pode ser escape para um coração em desespero. Sabia que todo dia a esperança se renovava, mas ver nos olhos, no clima e nas roupas de todos que a esperança transbordava neste dia exato, pintava a alma de branco e trazia a sensação de que agora sim, agora a gente podia começar outra vez.