11 de novembro de 2009

Quebra-sorrisos

Começou procurando no quarto. Nada debaixo da cama. Nada atrás dos travesseiros. Abriu o guarda-roupa, cada gaveta... Não encontrou nem um sinal. Saiu a procurar pela casa, vasculhando cada canto. Encontrou algum resquício atrás das portas. Provavelmente impregnado ali naquele dia em que bateu a porta e a raiva. Buscou mais e foi encontrando partes pequenas. Um resto em cima do sofá, de uma bela noite passada. Um pouco no tapete da sala, talvez de um dia em que rolavam pelo chão. Encontrou um pouco na geladeira, preso ao pote de sorvete. E uma quantidade razoável no álbum de fotos e na estante de livros. Depois foi aos discos e encontrou um pouco em algumas melodias antigas, coisas do Chico e do Oswaldo. Manteve a esperança e até encontrou em alguns gritinhos modernos, uma coisa de hopelandic. Foi assim que começou a caça por pedaços de sorrisos inteiros que um dia existiram. Ontem encontrou um risinho raro em uma carta. E hoje em um sonho, prevendo o futuro. Está formando um quebra-cabeça dos pedaços que perdeu. E foram tantos. Quem sabe, um dia aprende a fazer colcha de retalhos de pedaços de sorrisos. Quem sabe, não.

1 de novembro de 2009

Vasto

Ela olhava e percebia tudo passar assim, breve. Sentiu o cheiro da terra, o cheiro do sol. Podia bailar o mundo inteiro com a simplicidade estampada dos coloridos de uma alma recentemente alforriada. Tinha naquela sabedoria silenciosa certa paz, alguma ou nenhuma espera. Compreendeu após as buscas por outros que tudo foi procura desnecessária. A busca era pelo de dentro. Procurou em outros sua própria alma. Desvairo. Ainda busca, mas agora por diversão. Diverte-se nas almas alheias. Faz dos amores, recreios. Sem pecados, com encanto. Um prazer indivisível. Todos são, pois não? O sentir é solidão de cada um. Como ele que prefere os começos, ela que já escreveu o fim. Compartilham então o meio - o presente - aquele sempre ignorado. Ela não consegue fazer com que sintam o amor que divide e assim, pôr fim às dúvidas. Ele não consegue que dividam o medo que sente e assim, dêem o agrado certo. Impossível pedir que alguém sinta o mesmo. Basta que alguém esteja disposto a tomar parte. A lógica se inverte mais tarde. Ou a vida não é isso? Esses desencontros de emoções que nos levam a novas chances no futuro ou frustrações bobas no presente - o que preferirmos. Não existe nada mais tirano do que as expectativas que, inevitáveis como são, tornamos maiores do que nós mesmos, impossíveis. Alimentamos a cada dia a nossa frustração. E somos tolos o suficiente para chorarmos com susto o que plantamos cuidadosamente todo o tempo. Já diria a canção: ‘e tudo que eu criar pra mim, vai me abraçar de novo na semana que vem’. Ela estava na janela espiando a vida lá fora. O cachorro que passeava após conseguir fugir e a alegria da liberdade, imbatível. Os namorados que timidamente conversavam e a beleza dos olhares dos que se querem bem. Os adultos que passavam de carro sem tempo para ser felizes, piedade. As crianças que de cócoras colocavam a plantinha para dormir. Que de súbito em uma corrida sorriam o que alguns levam anos para sorrir. Que tinham cabelos desalinhados e dentes faltando e ainda assim, gargalhavam beleza. Ah, a pureza das respostas das crianças. Ela sentiu um alívio ao pensar que alguém ainda sabia viver. E era ela.