29 de outubro de 2009

A porta

Fulge escuridão. Um medo disfarçado bate à porta. Insiste, insiste. Ela não pode abrir. Não há compaixão que supere o medo. A melancolia acorda, invade com o morno sorriso do que - já passado - não a abandona. Pela janela vê a esperança, cabelos ao vento. Já vai distante. Esperança e passado não se acertam. Quando ele sair daqui, pois sim, ela volta. O sol alto... Cá a escuridão brilha.

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta.


(E agora, José? – Drummond)

22 de outubro de 2009

Passou

Foi tal qual um pequeno susto. Um tropeço e aquele momento: não se sabe o meio – se deve chorar, gritar, fazer manha ou drama. O momento se interrompe pelo abraço, que na verdade era o fim desejado por todos os meios. A tal obscena compulsão por ser amado... Pois bem, então alguém se lembra de dizer: ‘pronto, vai passar. Passou, passou’. E passa! Não sem dor, não sem durar o tempo que deveria. Mas por não duvidar que vai passar e pela pequena paciência da espera, passa. E logo. Pode ser que incomode um pouquinho quando molhar, no começo – uma forma de lembrar o que aconteceu - então vai passar. Fica uma pequena cicatriz talvez, não sem propósitos. É por ela que não se esquece. A dor passa, o momento passa e o choro também. Mas a cicatriz fica. Ainda bem. Assim, ainda dá pra brincar, para pular, para se entregar e confiar, mas não com a tolice de pensar que nada de mal pode acontecer. Pode, pode sim. E efêmera verdade: vai passar. Sempre vai, vai sim.

13 de outubro de 2009

Gente grande

Ele tinha medo de virar gente grande. Não admirava gente grande. Eles não choravam na frente dos outros, mesmo que o coração apertasse muito. Não se divertiam com gargalhadas sempre que a graça assim o pedisse. Não admitiam o desejo pelo último pedaço. Não podiam brincar. Não banhavam na chuva, nem deixavam gente pequena banhar. Podem ficar doentes, eles diziam. Mas tristeza também adoece, ele pensava. Ele não compreendia porque ser feliz era um pecado para os grandes. Gente grande precisava alcançar o sucesso. Lê-se: fazer qualquer coisa de que não goste, em todo o tempo que não tem, para ganhar dinheiro, muito dinheiro e mais dinheiro. Para não gastar com bobagens, vale ressaltar, no tempo que não sobrava. Gente grande não tinha tempo para bobagens. Bobagens? Pois sim. Foi até no dicionário e descobriu: bobagem é sinônimo de criancice. Certamente um adulto inventou isso! Assim, pensou: se criança vive criancice (!) ele era todo bobagem. E não interessava virar alguém indiferente a ele mesmo. Mas a vida prega peças e, sim, ele cresceu. Ficou magoado, chorou, quando no espelho, viu uma gente grande que gosta de criancices. Hoje ele se pergunta como é possível ser gente grande e continuar gostando de ser feliz. Enquanto procura a resposta, ele vai fazendo algumas bobagens. Lê-se: ele vai sendo feliz.

9 de outubro de 2009

Amaria

(...) se angustiava por, mais uma vez, perceber-se deslocada num mundo onde os brinquedos mais divertidos eram formados nas rasas relações de sentimentos frouxos e que, para ela, não tinham a menor graça. Por isso ela sabia que era exceção, ainda era exceção, e já não sentia necessidade de inclinar-se para espiar o amor cotidiano, sempre aquém de si. Sua índole não lhe permitiria. Entrar no jogo seria desvirtuar o que mais importava em sua vida: o amor. Para esta traição de si não havia disposição. É só uma pausa, uma cauterização e um beijinho de quando-casar-sara para Maria continuar sua busca sem arrefecer. Afinal, suas disposições formam um manancial do qual brota os mais voláteis e rarefeitos traços de amor. E da mesma maneira que ela o cultiva em suas relações, necessariamente profundas, continuará buscando-o em sua forma mais pura. Basta passar o tempo da cicatrização, Maria voltará à ativa, e ainda uma vez se deixará entrar na brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha, talvez tenha mais sorte. É assim. Tem de ser assim. De outra forma não poderia usar a denominação “Eu aMaria”!

Por ele,

jotapontoqualquercoisa.blogspot.com

5 de outubro de 2009

Bordada de Flor

“Vai ver era só dizer a ela assim:

-Oi Moça, por favor, cuida bem de mim”


(Menina Bordada)


Apreciava aquele cheiro, a doçura que emanava. Amava o cheiro indiferente à mudança de perfumes. Namorava a aura imaculada. A pureza encontrada. Ela parecia não viver na selva em que ele habitava. E de alguma forma, os passos o conduziram além. ‘É preciso ver além, é preciso sempre ver além’. Os olhos descortinaram-se e não sabia mais serem seus olhos ou a imagem dela. Ela lembrava poesia, “a cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro”. Como alguém mantém candura nesta vida de maldades veladas com tanto bel-prazer? Este ar casto preservara-se para ele? Ela seria dele? Desconfiava, ele era dela. E ela não podia ver ou não se importava. Permanecia com ar de superior independência - independência de fina flor - mesmo tendo a medida exata dele.