28 de setembro de 2009

Em tempo

Precisava saber as horas. Pensava que se atrasara. De alguém ou de algo, não sabia bem. Sentia um pouco de medo. Contudo, era um medo quase bonito. Preferia crer que foi um atraso e manter uma nostálgica certeza de que não foi culpa sua. É mais fácil que admitir que nada acontecesse, embora houvesse tempo. Foi um atraso, e por isso não viveu. Referia-se a coisas bonitas, claro. Num futuro não. Em um passado sim. O que não viveu. Foi lindo o encontro que não aconteceu, o sucesso que não conquistou, a decisão que não tomou, o sorriso que não deu. Esteve em plena distração, em outra vida ou em outra rua. Nove horas, alguém respondeu tão sem afeto. Talvez o outro pensasse não precisar de afeto, era somente uma resposta irrefletida. Entretanto, em sua existência, era uma resolução: coisa de uns anos talvez ou apenas alguns minutos. Não sabia bem. Atrasara-se uma vida.

18 de setembro de 2009

O que procuras?

O que procuras? O que vieste fazer aqui hoje? Procuras romances? Sonho? Verdade? Procuras a mim? Ou a ti? Queres que eu te dê voz? Que escreva por ti? Que diga o que não tem coragem? Ou não sabe? Ou não acreditas? Ou não podes mais? Queres zombar? Queres me diminuir? Ou te diminuíres? Queres que eu escreva o que queres ler? Queres o meu romantismo? Ou meu realismo? Queres duvidar de que seja possível? Ou queres acreditar que seja? Queres os meus olhos? Ou os seus? Pois afirmo que não encontrarás aqui nada além de ti mesmo. É teu olhar no meu que fará destas letras algo de bom – ou ruim. Se vieres com amargura vais sair daqui acreditando ser tudo uma grande ilusão de um coração romântico bobo demais. Se vieres com esperança vais sair daqui acreditando que é possível fazer tudo alguma coisa valer à pena. Se vieres não desejando nada, é com nada que vais sair. Vais entender então, um dia, que é teu olhar que faz o teu mundo. Que amas o que é teu em outro, e a recíproca vale para o ódio. Não é o que está diante de ti, mas o que procuras. A propósito, o que procuras?

14 de setembro de 2009

Vida

“E quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia: fechada, sozinha, perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada”. Caio Fernando Abreu

Sente aqui, vida. Vamos conversar. Tens teus direitos, és mantenedora e a única legitimidade que me permite estar aqui. Mas também devo ter os meus. E se não os tinha, eu os criarei de agora em diante. Pois já chega de brincar com os sentimentos alheios, já chega de tirar o chão quando a brincadeira está ficando boa. Não me ameace mais, por favor. Mal posso imaginar seus olhos indiferentes, frios às minhas lágrimas e meus pedidos. Não me faça acreditar que somos merecedores, nem me faça te desafiar sabendo que vou perder. Ah não, vida, não ria assim de mim. Seja benevolente, o mínimo que consiga, e me deixa conseguir um pouquinho do que preciso, e tens relutantemente me tirado. Não me deixe nesta solidão de sentimentos. Não me olhe assim! Não, não. Não vira as costas para mim. Pode me olhar, então. É preferível ao significado de total indiferença que tuas costas me trazem. Eu gosto de você. Não estou apelando, mas bem que poderia ser. Pode me levantar nos braços, tirar os meus pés do chão, mas me devolva, por favor. Não me deixa pagar pelas escolhas deles. Alivia um instante que seja. Permita-me buscar o ar e, pronto, volto para a sua brincadeira. Esta, a que desde o começo dos dias fui obrigada a brincar. Quando cansar, vida, já pode parar. Eu já quero descer.

6 de setembro de 2009

Reticências

Procura-se alguém que se divirta sem a indecisão do pré e o remorso do pós. Alguém que faça o que quer por escolha, e não vingança ou punição. Alguém que tenha idade para decidir e juízo para responder pelas escolhas. Alguém que se permita o novo, sempre e todos os dias. E que o novo seja o divertido, mas não necessariamente o irresponsável. Alguém que não seja inexperiente para se arrepender, nem experiente demais para desenhar qualquer fim antes do começo. Alguém que seja capaz de sintonizar o coração com o que deseja, e a custo de somente sua vida, ir à busca do que almeja. Alguém que tenha fugido do previsível e tenha conseguido se divertir sem acumular frutos de insensatezes. Mas que tenha guardado para o bem de todos e alegria geral da nação, os melhores frutos das mais tolas loucuras. Procura-se insensatos legítimos, que tenham o delírio por escolha e não consequência. Alguém que tenha descoberto que o grande mistério é não ter segredo algum. Alguém que saiba se divertir, sem culpar ninguém por isso. Alguém que entenda que liberdade permite tudo, mas também não exige depois. Procura-se alguém que queira se divertir para a vida toda, por um dia somente. Ou um pouco mais. (...)