29 de agosto de 2009

Cajueiro

Meu velho, foi um ano difícil. Difícil de saudade. Lembro ainda com a exatidão do momento, nosso último abraço e o cheiro da tua cabeça branca. Ah, meu velho, foi neste ano inteiro o cheiro que mais desejei sentir. Ainda te vejo entrando no quintal ou chegando da feira com a cesta cheia de milho, pirulitos e amor, tudo de graça. Lembro da tua alegria com as frutas que nasciam no teu quintal e teu sorriso sorrateiro, de quem, teimoso, usava o açúcar escondido. Das suas discussões sem fim com ela, que tinham virado gracejo já no fim. A gente dizia e foi provado, era só amor que ela tinha por ti. Fizeste falta. Todos os dias. Levaste a parte de nós que nos unia. Talvez não soubesses, era o nosso único elo. O que temos em comum acordo hoje é tua saudade, nada mais. A tua e a dela, que partiu um pouco depois para aliviar o que nenhum remédio faz ainda pela dor da ausência. Teu nome continua trazendo risos aos nossos lábios, mas agora acompanha sempre olhos lacrimosos. Tenho vivido o amor em silêncio, como disse que o faria. Estou cumprindo minha promessa ao amor que tantas vezes me abraçou. É verdade, e o senhor sabia, onde há ato, não se precisa de palavra. Espero que eles um dia compreendam tua lição, e substituam mágoas por gratidão, por respeito ao amor que sempre nos deste, a despeito de qualquer diferença. Queria hoje sentar na calçada contigo, escutar teus causos, te ver sorrir. Queria pedir a tua benção, pegar na tua mão, sentir os teus dedos, ouvir tua voz, ‘vá com Deus, fia’. Teu amor é o que está presente nas melhores lembranças. Na gratidão eterna por ser teu sangue e na certeza de tê-lo amado muito e, milagrosamente, ser plenamente correspondida. Faz um ano, nosso abraço está guardado. Sinto, meu velho, não tarda muito o dia de entregar-te.

27 de agosto de 2009

Aos meus

Tenho dias lindos, mesmo quietinhos.

Caio F.

Pois bem, aos meus: estou com alguns problemas na configuração do blog. Faz dias que ele não atualiza nas páginas dos caríssimos amigos e seguidores. Vou tentar resolver e já volto. Estarei aqui, no meu silêncio e nas suas palavras. Não demoro, sim?

Com o afeto de sempre, saúde e arte.

18 de agosto de 2009

O que eu queria

Pensei em sair e pedir a qualquer um, algum abraço. Não despreze a necessidade de estar envolta em outros braços. Também não se trata de nada, além disso. Um abraço somente. Sem mais delongas. Que mania de precisar o tempo todo complicar as coisas simples. Um amigo diria que às vezes uma coisa é só uma coisa. Não precisa interpretar, nem nada. Quanto ao abraço, não tem maldade no seu desejo. Aliás, nunca gostei da associação de desejar a maldade. “Você gosta dele?” “Sim, gosto, mas sem maldades”. Maldade? Qual a maldade de querer bem a alguém? E quanto maior o bem, maior a maldade? Não acho coerente. E quem se importa? Hoje, com ou sem coerência, queria mesmo era um abraço. De alguém que soubesse ouvir o silêncio. Alguém saber ouvir as palavras dos outros é dom, alguém saber ouvir o silêncio dos outros é quase magia. Queria um abraço mágico, então. Que não me medisse, muito menos pedisse. Que, em silêncio, estivesse acordado: é um abraço, só isso. Se bem que ‘só isso’ não define bem. “O que ele é seu?” “É meu amigo.” “Só isso?” Eu sempre quero dizer: “só amigo? Mas como assim, só amigo? É para ele que eu escrevo quando estou com insônia, é ele que escolhe presentes comigo, é ele que conhece meus amores e dores. Ele conhece meus segredos, e isso é muito. Como se atreve a usar um ‘só’ ao se referir a ele? Ele é muito, ser amigo é o mais que se pode ser. Pode-se namorar, casar, separar, voltar, amar e/ou odiar; e nem ser amigo. Repito, ser amigo é o mais que se pode ser. Entenda, um amigo.” Mas eu respondo: “só.” Infame divagação de quem usa as palavras para pedir que alguém escute o seu silêncio. Qualquer que seja o preço, qualquer que seja o peso, o silêncio faz-se necessário. Permito-me. Mas eu queria mesmo era um abraço.