29 de junho de 2009

Um caminho para a Terra do Nunca

Acho que ninguém lembrou de dizer para ele, em algum momento, que ele poderia fazer diferente. Poderia ir fazer um curso, dançar só nas festas da turma, ou nada disso. Esqueceram de dizer que ele não era mais obrigado. Poderia seguir uma rotina comum, de gente comum. Acho que esqueceram de avisar que se ele não quisesse mais aquela vida, poderia parar. Seu pai não mais o puniria por isso. Acho que esqueceram de dizer que ele não deveria fazer o que eles não podiam fazer. Não poderia ter um parque, nem gastar os milhões que ele, e somente ele, lutou para conseguir, da forma que ele desejasse. Acho que esqueceram de dizer que no mundo de gente grande ter desejos lúdicos é pecado. Tentar ser feliz então, nem se fala, uma afronta. Ser feliz? Isso nem se discute, para os adultos isso não existe. Não se tem tempo para isso, ora! Acho que não disseram para ele que não adiantava explicar, se, mesmo tendo suas verdades, eram as mentiras que eles queriam. Não importava que o acidente tivesse queimado seu cabelo, quebrado seu nariz ou mudado sua cor. Esqueceram de avisar também que, se fosse só vaidade mesmo, ele não devia explicações a ninguém. Talvez se ele fosse um legítimo adulto, que colecionasse relações grotescas com mulheres e/ou homens e/ou drogas e/ou bebidas, tudo estaria certo. Se ao menos ele guardasse todo o dinheiro do seu trabalho ou doasse, mais ainda, para as crianças carentes – aquelas por quem eles mesmos não faziam nada além de fingir preocupação. Mas, não. Ele pecou muito, muito mesmo. Gastou do que ganhou, o que quis, como quis. Brilhou, indiscutivelmente. Gostava de bichos, brinquedos e crianças. E, além de tudo isso, encontrou um caminho para a Terra do Nunca. Mas, por fim, ninguém o avisou que ele poderia ficar tranqüilo, o problema não estava nele. O problema era que ele tinha talento demais, dinheiro demais, possibilidades demais, sucesso demais e luz demais e - estivesse errado ou não, pecando ou não - ele precisava pagar. Porque eles não tinham.

24 de junho de 2009

Ainda existe

Por Eduardo Galeano

Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar.

Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem.

Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.

16 de junho de 2009

Alegria

Minha ausência das palavras deu-se por eu estar muito ocupada, escandalosamente feliz. Preciso compartilhar o que senti, e deixou em mim uma felicidade pequena, de quem ama grande. Sempre se gasta tanto tempo e tantos versos poetizando tristezas, que acho justo fazer o mesmo da alegria. Mas sem expectativas, nada aconteceu de estrambótico. Só estive perto de amores, os primeiros e os últimos, e os vi compartilhando risos e leveza. Coisa pouca mesmo, como tudo que é preciso para me fazer feliz. Devo considerar que, após exaustivas dores, é muito possível aprender também nas alegrias. E devo considerar mais ainda, que só o sentimento de memento mori me fez perceber as alegrias do presente como dádivas e não rotineiro merecimento. Se por tempos vivi uma liberdade silenciosa, agora não é mais possível esconder. O perfume de uma alma liberta invade. Indisfarçável. Senti orgulho de saber que estamos no passo certo e que são para pequenos momentos como estes que devemos continuar a caminhada - a permissão a nós mesmos da alegria sem culpa. Tenho sentido a melhor de todas as ledices, e a minha preferida, esta de completamente grata. Quem ama nesta vida – e reconhece – entende a que me refiro. Tenho dito.

10 de junho de 2009

Aviso

Por qualquer lugar do caminho o papel caiu da minha mão. Está por entre quaisquer pedras. O vento pode até tê-lo levado. Se o vires por aí, perdoa a bagunça das letras e dos sentimentos, era assim que estavam dentro de mim. Mas tenha um pouquinho de cuidado por onde pisas, peço. Podes estar desatento para o que era muito importante para outrem. Aviso-te, por uma estrada qualquer podes tropeçar, assim como o fiz, no que senti. ‘Não esqueça que estaremos sempre juntos’, era qualquer coisa assim.