29 de março de 2009

Se puder, sem medo

Deixa tudo que eu não disse, mas você sabia

Deixa o que você calou e eu tanto precisava

Deixa o que era inexistente, mas eu pensei que havia


(Oswaldo Montenegro)


28 de março de 2009

Hora do Planeta

Muito simples. A idéia é desligar, hoje, no dia 28 de março, entre 20h30 e 21h30, as luzes de nossas casas, bairros e cidades. Na verdade, não usar o desnecessário. Desligar o máximo que for possível como forma de manifestar nossa preocupação com o aquecimento global. É uma ação simbólica, mas não somente isso. Se um saco plástico que não jogamos na natureza contribui para a melhoria da qualidade de vida imagine só milhares de pessoas economizando energia. A questão ambiental excede a educação superficial de ‘não pise na grama’, é questão de solidariedade, generosidade e disposição em ajudar. Diga, se te parece ridículo desligar por uma hora as luzes, imagine o quanto você vai deixar de poluir para salvar as Ilhas Maldivas, por exemplo. Ah, claro, você nem é de lá, nem vai conhecer, entendo. Mas as ilhas serão perdidas mais rapidamente, o que não significa que o clima de sua cidade também não vá sofrer o seu colapso. Dizem que a natureza não responde, ela se vinga. Sei não, acho que é só consequência mesmo da falta de respeito que temos ao nosso próprio mundo. De qualquer forma, vamos dar uma aliviada para ele hoje, deixar ele respirar um pouquinho. Muito ainda vamos ter que fazer, e vai chegar a hora em que vai deixar de ser simbólico e, ou se faz, ou a natureza já era. E quando digo a natureza lembre-se de que você não está vivendo nela, você é ela! Ou ainda não percebeu que o mundo estando ameaçado você também está? Sim, eu sei que daqui a 100 anos você não vai estar aqui. Pensaram assim também a 100 anos atrás e veja só o quanto pagamos por isso. Esse programa já existe a alguns anos, mas é a primeira vez que acontece simultaneamente no mundo inteiro. Vamos aproveitar para brincar: os românticos jantam a luz de velas, as crianças vão adivinhar as sombras na parede, a família fica junta no mesmo quarto, onde tiver luz e solidariedade acesa, ou nada disso, mas vamos fazer nossa parte. Hoje a Hora do Planeta visa a proteção ao meio ambiente, mas visa sobretudo medir o compromisso que cada um tem em fazer sua parte. Sim, é verdade que se os grandes não fizerem, não adianta a ação dos pequenos. Mas a recíproca é totalmente verdadeira.

27 de março de 2009

Juramento

Um missionário que viveu muitos anos entre os zulus, assim traduziu o juramento que, tradicionalmente, todo noivo daquela tribo africana profere no dia do seu casamento: “Que o sangue escape de todas as veias do meu corpo, que um raio me parta em dois, que os crocodilos me devorem, que eu seja condenado a transportar água numa peneira através das chamas do inferno, que eu nasça novamente, surdo, cego, mendigo e coberto de chagas, se um dia enganar minha esposa”.

25 de março de 2009

O belo e o bom

Por Lya Luft

Se não podemos mudar o mundo, interminável trabalho de formiguinha, resta nos abrir para o que existe e sempre existirá de positivo: os verdadeiros amores, que não se baseiam em vantagens, mas em ternura e respeito; as verdadeiras amizades, que não se contam pelos dias convividos, mas pela certeza de que o outro está sempre ali; as verdadeiras famílias, em que apesar das diferenças imperam a confiança e a alegria. A tragédia da humanidade está no cotidiano minúsculo de cada um de nós, que corremos na superfície da verdadeira vida, obcecados por deveres insensatos, corroídos de inveja e desejo de aniquilação, distantes das coisas essenciais - pobres de afeto, despidos de alegria. Talvez seja uma saída. Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar nossa postura no mundo, o público e o privado. Em lugar de nos amargurarmos pela loucura, podridão e injustiça, podemos abrir mais espaço, ou algum espaço, para o bom e o belo, que afinal existem. Tentar curtir a natureza, saborear a arte, atender os necessitados, preparar crianças e jovens para a vida, cultivar harmonia na família, olhar para dentro de nós mesmos e nos escutar. É um bom começo. Olhar o mar ou o amanhecer, que são de graça e nos dão a sensação de que afinal nossas misérias são apenas misérias e que o grande drama é ter a alma mutilada pela amargura.

24 de março de 2009

A ti, mãe do príncipe

Em memória de João

Não há consolo para muito amor, querida. A saudade cresce da mesma forma que ele estaria crescendo, tal qual o amor que cresce sem pedir presença. Gostaria mesmo de te segredar os motivos, algo que fizesse a dor passar; mas detenho-me ao que se teve: seria melhor não ter este amor e viver opacamente sem esta lembrança ou conviver com todas as lágrimas a custo de ter tocado em um amor puro, em sua essência? O que de melhor um filho poderia te trazer senão um amor imaculado? Tuas lembranças serão de um ser que veio te trazer um amor, tinha um pequeno tempo para isso, e o fez em sua plenitude. No mais, além de trazer, ele levou teu amor, foi desejado e te teve por inteira durante todos os dias em que esteve aqui. Acredito que foram escolhidos para estar juntos, e há tanta honra nisso. Teu filho te deixou mais bonita, vestida desta beleza sábia de saber que a vida é breve, muito breve, e que quando alguém se vai, deixa um pedido de que por aqui se viva melhor. Teu filho, querida, veio nada além do que te trazer vida. E se tudo não tivesse sido exatamente como foi, não teria cumprido o propósito a quem se destinou. Sei disso mesmo sem tê-lo visto, porque, afinal querida, ele deixou esta vida em teus olhos, em teu sorriso, em teus passos. Pelo teu príncipe, de vida breve que se fez eterna, que seja um dia dedicado a agradecer pelo que se viveu e pelo que se deixou. A saudade que se tem é reflexo do amor que somente ele poderia ter te dado. Então, vamos guardá-la bem perto do peito, vamos fazer questão de manter sua lembrança viva para que não se esqueça jamais da luz que ele trouxe. Uma luz destas que guiam e que melhoram o mundo, mesmo deixando uma saudade inconsolável. A ti, príncipe, uma promessa de que, em breve, terá novamente os braços de tua mãe. Ela saberá que era assim que deveria ser, exatamente assim. A ti, mãe do príncipe, a certeza de que teu filho te deu o melhor presente que poderia: devolveu-te a ti mesma. Em memória de ti, AnJoão, o melhor amor que houver.
Repara que o outono é mais estação da alma do
que da natureza.


Drummond

23 de março de 2009

No jardim

Foi antes de ontem, no jardim. Pedi para a florzinha cor-de-rosa desabrochar para mim. Ela disse que podia até nascer, mas desde que de já eu aceitasse que ela iria embora logo. Sem teorias ou dramas, a vida dela era assim, de trazer ternura indizível e indescritível, mas ter logo que partir. Pensei, pensei. E enquanto eu pensava, ela nasceu! Mas eu nem escolhi se aceitava tua efemeridade – eu disse. Ela disse então que também não bate na porta e nem arromba, ela simplesmente nasce e vive ali, eu desejasse isso ou não. Terminou de me ensinar e se ofereceu a mim. Era linda, perfumada e afetuosa, mas efêmera. Pensei em pensar um tempo se aceitava, mas era pouco tempo para decidir. Aceitei, mesmo sem saber se essa havia sido minha escolha. Algumas coisas não podem esperar para serem vividas. Isso também foi ela que me disse. E ela já se foi.
Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de desinventar

Chico Buarque

19 de março de 2009

É preciso a chuva para florir

Então floresce, menina. Sabes agora a rapidez desta vida, sabes a importância de amar sem tréguas. Tuas lágrimas regaram teus sorrisos, que hoje tem outra cor e outra alegria. Corre tuas ruas, canta tuas serenatas e se perdoa. Agora conheces o que importa, e menina, não fala para ninguém, eles não entendem. Deixa que vejam por teus passos, por teus abraços. Mostra, menina, que a vida é um dom, e não merece maiores dramas. E as alegrias são mais absolutas quando o sorriso enxuga uma lágrima. Faz da tua vida um jardim, menina, porque o sol é chegado.