26 de fevereiro de 2009

Escuta

Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser então. C.L.

Penso que não precisava de ti. O que eu precisava era do encontro com o amor. Penso que sempre busquei o caminho e não a chegada. E assim chegaste à forma de caminho. Deste-me bem cedo o caminho livre para seguir, sabendo que estarias do meu lado, mesmo que não possa ver-te. Foste à amizade mais sincera, mais abnegada. E embora a saudade, por vezes, seja quase sufocante, as lembranças me remetem ao caminho que me apresentas-te. Tenho seguido nele. Tiveste tanta sabedoria de deixar-me livre, porque assim prendeu-me eternamente a ti. E quase acredito que a surpresa irá chegar a alguma esquina e esperar-me. Serão teus braços e abraços, e entenderei que o caminho que me deste e me fez seguir levaram-me tão somente a ti e ao teu amor, a liberdade que sempre busquei.

Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Camões

23 de fevereiro de 2009

Baile de máscaras

Qual a sua máscara deste carnaval? Resolveu sair, beber e dançar para mostrar que está bem? Resolveu ficar em casa, e louvou esta escolha, mesmo sabendo que foi imposição e não escolha? Ligou a televisão dizendo que não tinha o que fazer para disfarçar a sede do fútil? Desligou a televisão para manter o intelectualismo, mas não suporta sua própria e única companhia? Então no tempo em que vale tudo, pensar, refletir e mudar também vale? Ou não? Vamos deixar para a virada de ano que é o tempo certo, não é? Mais ou menos assim: natal é tempo de sermos falsos generosos, ano-novo é tempo de mudar, semana santa vamos brincar de religião e carnaval... Bom, se é carnaval, vamos ser inconsequentes! Seria isso? Assim, eu imagino que aqueles bailes em que a diversão maior era estar colorido e pular ao som de marchinhas tinha seu valor. Era como brincar, de verdade. E brincar é bom. Hoje a máscara é colocada ao mesmo tempo em que a vergonha roupa é tirada. Se você gosta deste novo formato de carnaval, eu respeito. Não seria mal respeitar a mim, que não gosto. Então, abre alas, que eu quero passar: o superficial não me atrai, eu gosto de intimidade. Todo mundo não importa, eu prefiro cada um. Inconsequência não! Gosto de erro/ou acerto consciente. Eu escolho o que fazer e a culpa é minha. Ora! Vou sair na avenida no dia que o coração for mais importante que o silicone em cima dele. No dia em que a alegria for genuína e nenhuma vida estiver em risco para isso. Que cada um aproveite com a máscara que escolher. Eu preferi tirar a minha. Para mim, a folia é mais gostosa assim.

Perdão

Desculpe, mas não posso corresponder. Lamento se isso a magoa. As pessoas são mesmo diferentes, é preciso aceitar. Às vezes até gostaria, para corresponder ao que espera de mim. Mas não dá. Não desejo tudo em dobro, nem que tenhas o que me deseja. Não desejo que sejas infeliz, nem que sofras. Não desejo humilhar-te, nem mostrar-me superior. Não desejo macular sua imagem, nem mentir a seu respeito. Desculpe, mas com você não é possível. O problema não está em você, mas em mim. Peço meu sincero perdão. Espero que entenda.

P.S.: “Se eu a amo, o que ela tem a ver com isso?” Goethe

21 de fevereiro de 2009

Teimosia

Em um silêncio maior de todos os tempos, reconheço-me e passo a aceitar o que é necessário de mim. Há toda uma leveza em meu olhar por agora entender o tudo que os outros podem me doar. É menos do que eu esperava, mas é tudo que eles podem. A mim só cabe escolher entre renegar ou aceitar a parte que me cabe. Corro agora trás do meu sorriso, o que se perdeu antes desta descoberta. Aquele que não esperava nada, porque não precisava. Agora o quero de volta para ensiná-lo que ele deve permanecer ‘apesar de’, e assim será muito bom para todos nós. Ainda bastante perplexa com as loucuras que tem acontecido com meus dias e meus amores, coloco-me em resignação absoluta de quem não pode modificar o futuro, mas tem algum poder de mudar o presente, como sempre é possível através das escolhas. Minha escolha é honrar minha existência com a revolta no espírito que me conduz a teimar e ser diferente do que me é imposto. Teimosia sempre foi meu maior defeito/qualidade. Sempre foi o que me fez errar, mas o que me fez acertar. Sempre paguei alto por insistir em ser assim. Mas não poderia ter acertado jamais se não consentisse em errar outras vezes. Tento ser generosa não por bondade, mas por teimosia. Se o óbvio é me tornar fria e cínica depois de traída pela vida, teimo e decido oferecer aos outros o que não ofereceram para mim. Nada de beneficência, teimosia pura. Teimar não é meu. Sou eu. Vou teimar com quem cruzar meu caminho, e procurar viver uma relação diferente e sempre fugir do que é previsível. Não é desprendimento, é teimosia. Foi por teimosia que eu disse que ninguém tiraria meus sonhos. Não foi persistência, foi teimosia. E teimo e insisto em acreditar, sabendo que vou posso me decepcionar. E se isso acontecer, teimo em esquecer e esqueço. Sempre foi assim.