30 de janeiro de 2009

Ama-me

"O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, 'esse lugar confuso', o amor um dia. E de repente, te proíbem disso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida". Caio Fernando Abreu

Aquele era o único pedido a que se dispunha: - Ama-me, ama-me, ama-me. Era um susurro lento, devagar, quase sôfrego. Mas era impiedoso, implorava, aceitava qualquer valor, desde que fosse cedido. Agarrava-se com tamanha avidez que parecia eterno. Mas era tão terno, tão doce. Nada prejudicava, embora mantivesse constante avassaladora força em pedir: -Ama-me, ama-me. O pedido não era obedecido, em nenhuma escala. O que se mantinha de troca era a promessa, embora não dita. Mas os olhos diziam alguma coisa, retratavam alguma esperança. Talvez não. O pedido era incessante, mas lívido. Não duraria a eternidade. Não a mesma que teria o amor - se aceito fosse. Mas não foi. Então a distância inevitável. Os passos ligeiros, e lacrimosos, e feridos de amor. Não o amor não correspondido. Mas o amor gigante que fazia doer o peito e não havia quem o quisesse para si (...)

"Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer".
Clarice Lispector

24 de janeiro de 2009

Desassossego

Tão desamparada. No canto, pernas cruzadas, olhar distante. Emoções, revolta, indignação. Consternação, dor, súplica. Neste sentir, inadmissível, entregar-se-ia a qualquer abraço, promessa ou consolo. E por isso mesmo corre, tranca a porta e se esconde. De si mesma.

"Pode ser mesmo que eu sinta duas coisas inconjugáveis ao mesmo tempo. Não importa." Livro do Desassossego

20 de janeiro de 2009

O campo tão sem flores

Minha Mãezinha, olho-te e procuro recordar quais eram antes os meus problemas. Lamentava-me pelo quê? Porque havia lágrimas se havia tanta saúde e força? Que vergonha, Mãezinha, dos meus pedidos egoístas a Deus, dos problemas inexistentes, dos dramas criados. Que saudade de tua força, de teu cuidado, de nossa paz. Como naquele dia, em meio às lágrimas, a minha promessa é a mesma: ser-te-ei leal, estarei contigo durante toda a nossa vida. Seja ela de que tamanho for. Meu peito quer força para gritar a todos que acordem, que deixem de coisas vãs, que olhem para o lado e reconheçam a dádiva do que nem merecem. O diagnóstico não foi aquele, Mãezinha, não aquele frígido. O diagnóstico foi que, a partir deste resultado, teríamos o mesmo amor de verdade, mas agora daríamos valor à isso. Se te chamo Mãezinha desde sempre não foi por pequeneza. És muito grande. És Mãezinha pelo carinho, por ainda cantares as mesmas musiquinhas de quando nasci, e quando repreendida ('vai estragar esta menina'), repetir a mesma resposta ('amor não estraga'). Ah não, amor não danifica, amor dignifica. E se hoje enfrento a dor com o coração forte não é mero acaso, é fruto do que plantaste. Sou fruto do teu forte amor.

Para onde fores, Mãezinha, para onde fores
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas
Eu, para amenizar as minhas dores
Soneto ao Pai, por Augusto dos Anjos
Soneto à minha Mãezinha, por Maria

16 de janeiro de 2009

Aqui comigo

Vem, pode vir. Chega mais perto. Senta aqui. Aqui comigo. Prometo o silêncio, se melhor for. As palavras, se as desejares. Deixa realizar meu desejo de cuidar de você. Não é altruísmo, embora possa disfarçar-se disso. Sei lá... Pode até ser um egoísmo pequeno. Ou grande. Porque cuidar de você faz eu ficar tão bem. Então disfarçado de altruísmo fica perfeito pra nós dois. Melhor assim. Se isso for algum egoísmo, imagino que ser egoísta pode fazer bem. Então como seria um contraste, cria outro nome pra isso. Chama como você quiser, eu desejar cuidar de você por amor a mim e beneficiá-lo com isso também. Não chama de egoísmo, nem de altruísmo. Melhor: não chama. Mas vem.