14 de setembro de 2009

Vida

“E quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia: fechada, sozinha, perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada”. Caio Fernando Abreu

Sente aqui, vida. Vamos conversar. Tens teus direitos, és mantenedora e a única legitimidade que me permite estar aqui. Mas também devo ter os meus. E se não os tinha, eu os criarei de agora em diante. Pois já chega de brincar com os sentimentos alheios, já chega de tirar o chão quando a brincadeira está ficando boa. Não me ameace mais, por favor. Mal posso imaginar seus olhos indiferentes, frios às minhas lágrimas e meus pedidos. Não me faça acreditar que somos merecedores, nem me faça te desafiar sabendo que vou perder. Ah não, vida, não ria assim de mim. Seja benevolente, o mínimo que consiga, e me deixa conseguir um pouquinho do que preciso, e tens relutantemente me tirado. Não me deixe nesta solidão de sentimentos. Não me olhe assim! Não, não. Não vira as costas para mim. Pode me olhar, então. É preferível ao significado de total indiferença que tuas costas me trazem. Eu gosto de você. Não estou apelando, mas bem que poderia ser. Pode me levantar nos braços, tirar os meus pés do chão, mas me devolva, por favor. Não me deixa pagar pelas escolhas deles. Alivia um instante que seja. Permita-me buscar o ar e, pronto, volto para a sua brincadeira. Esta, a que desde o começo dos dias fui obrigada a brincar. Quando cansar, vida, já pode parar. Eu já quero descer.

14 comentários:

Bê Matos disse...

E quando acabei de ler aqui, fiquei sem palavras - de verdade.

Podíamos fazer isso com frequência, não é? Chamar a vida pra uma conversa séria, com sentimento.
Já falei que aqui é lindo demais e que eu amo ler os seus textos? Pois, é.

Meu beijo, Maria.

Sandra Leite disse...

Ah, menina-Maria

Que delicia de texto, gosto da brincadeira de "levanta, me deixa, nao larga". Porque acho que a vida é essa imagem fragmentada, um mosaico, espelho que despedaça e te reflete sempre diferente.
Ah, fofoca: falei com a minha vida que nao era assim, como ela acha que sou. Ela insiste em me refletir pelo avesso.
Ainda assim, viver é uma dádiva! E cansar, só no paraíso;)

beijos, querida

Luana Gabriela disse...

Maria se vc conseguir fazer sua vida parar e descer me avise.. quem sabe também não funciona com a minha?

Bjos querida!

;)

Thais disse...

Quando quiser, já pode parar. Eu já cansei de brincar.

É o que eu diria para ela também.

Sempre bom lhe ler.

Beijos

Carito disse...

ave vida
nave vida
navenidasambar

entre vidas e voltas
as voltas
que a ida dá

e uma poesia
ao mar ia
foi para ficar.

Andréa Cavalieri disse...

Havia cansado de esperar. A menina brincava dentro da casa, ansiosa pela promessa de novas cores um dia a ser cumprida. Seu branco já estava desbotando nas paredes, embora a experiência da "vida" já não lhe dera muita variação de tons nos últimos anos. Para ela, tudo seguira num mesmo nuance até o dia em que lhe juraram apresentar o arco-íris.
Mais do que a porta para as novas cores do mundo, esta seria a "ponte" que levaria a menina àquele céu tão cantado em suas orações de joelhos por uma "vida" fora da casa. Eram dias e dias a fio, apoiada no parapeito da janela esperando o enlace entre a chuva e o sol. Queria testemunhar o espetáculo nas nuvens para, finalmente, a menina poder se arrumar com sua mais bela roupa e receber aquela visita.

Mas nada aconteceu.

O tempo seguia em seu ciclo numa estabilidade rara de encontrar por aí. E o arco-íris tão esperado só aparecia quando ela cismava em fitar o sol para, de uma vertigem ilusória, lhe surgir cores novas. Mas, desta vez, não havia mais ponte. Tudo estava solto no ar.

Agarra o que é teu, Maria!!!

Lorita disse...

Que lindo!

Esta dona vida...
Respire fundo, esnobe esta tal legitimidade existente e escreva novas regras.

Bjunda!

;)

Késia Maximiano disse...

E qd a gente cansa de brincar.. O melhor mesmo é parar, descer...

Beijão

Erica Maria disse...

Adoro seus textos e lindo é tudo q se vê e lê por aqui...

BjOS e te gosto *

Cisticerco disse...

Perfeito.

fernando disse...

Se eu tivesse certeza do que tem lá do ouro lado, ofereceria todo o meu silêncio pra vida, oferecendo-lhe apenas uma banana, mas vai que a morte é surda, né!
Ótimo texto, a personificação da vida é tocante.

Erica Maria disse...

Saudades de ti*

Bjos*

Desnuda disse...

Não sei leio com olhos ou com o coração. Se com a mente ou a percepção. É sempre assim aqui, Maria. Mas sei que tenho que tomar cuidado para não me perder na beleza das palavras, no encanto dos teus textos. Ir mais além...Porque é preciso. Não sei se alcanço. Eu tento. Mas sei que sinto. Sinto. E emociono-me, sinceramente. Estas palavras. minhas, estão molhadas. Porque as palavras tuas, são nossas.


Carinhoso beijo.

Sabrina Davanzo disse...

Que lindo, Maria! Duvido que falando bonito assim a vida não vá ouvir você.

Um beijo,

Sabrina