18 de abril de 2009

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Por Caio Fernando Abreu

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho. Esse, simples, mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa? (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.) Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

9 comentários:

Valdemir Reis disse...

Olá Maria estou matando a saudade deste maravilhoso espaço, que lugar harmonioso. Espetacular e cada vez melhor! Parabéns pelo belo trabalho que desenvolve. Muito boa sua publicação. "Amigo é coisa pra se guardar... ", obrigado por sua simpatia e amizade. Encontrar-nos-emos sempre por aqui. Também quero desejar um feliz e abençoado fim de semana para toda família. Brilhe sempre, sucesso, prosperidade, proteção e paz. Fique com Deus.
Volte sempre!
Valdemir Reis

Desnuda disse...

Maria... Ler Caio Fernando me faz ficar neste estado de alta emoção... Que palavras lindas...Que intensidade!!! Palavras que entram pelos poros, entranham na mente e ficam tatuadas na alma. São assim os textos de Caio Fernando - sempre o máximo de tudo.


Obrigada querida por este belo momento. Um grande beijo

Dica disse...

Caio é Caio e sempre será Caio.
Inconfundivel!

Leio ele como quem lê bula de remédio. Com toda atenção do mundo.
(É, eu gosto de ler bula de remédio. Chega a ser vício)

Beijo, Maria!

Erica Maria disse...

Ah, que texto delicioso de ler!

Descobri Caio F há pouco tempo, mas já adoro muito o que ele escreveu!

Bjos linda Maria!

fernando disse...

O sentimentalismo do texto é deveras envolvente, contudo, acredito que necessário saber se ter, antes de se dar, primeiro ser este ser que se completa, tal qual Platão escreveu no mito do andrógino.

Nanda disse...

um desespero doce que se faz da leitura em caio e de caio. adorei tanto que deixei um pedacinho lá cmg

Beijos pra ti, guria

.: Juliana :. disse...

Belo texto.

E com certeza faz toda diferença.

Beijo grande.

Ótimo feriado.

Luana Gabriela disse...

Maria, não resisti passei alguns trechos pro meu espaço é exatamente tudo que sinto...

Bjos

Line disse...

Sempre passo por aqui pois acho que
você escreve de uma maneira tão espontânea, simples e ao mesmo tempo envolvente. E agora não pude deixar de comentar o quanto esse texto do Caio Fernando é lindo e o quanto ele fala por mim.. Caio é sempre Caio =)
Parabéns pelo blog.
Beijo