30 de dezembro de 2009

Fim


Entendo quando é chegado o fim. Aceito o ponto final, o fechar das cortinas. Em meio aos aplausos e aos olhos inundados compreendo que a nostalgia é o que resta. Sinto um fim se aproximando. Sinto que algumas coisas já estão virando lembranças e meu olhar já denuncia despedida. Depois ouvirei rumores do quanto é possível ser insensível a perdas. Bobagem dos que não sabem virar páginas. Viro a página. Visualizo o fim. O espetáculo mergulha em solidão, no silêncio do que foi bonito e bonito, se foi.

12 de dezembro de 2009

Vazio

Um vácuo de emoções, uma vontade de nada ou nenhuma coisa, tanto faz. O amor sempre virou cinza sem que eu sentisse o calor das chamas. Uma espera pelo que vai chegar, vai chegar, vai... Vai? Não sei, mas hoje choveu. E com trovões e relâmpagos. Sim, continuo gostando deles. Acho bonito. É realmente um gosto estranho. Sabe, acordei hoje e pensei em gérberas. Depois me espantei que no jornal a notícia importante fosse quem não roubou. Deveria ser o contrário, não? Ah, o sonho dos românticos! O poeta disse para não tirar a poesia das coisas... Acho que sinto fome. Uma fome arrebatadora. E nem poderia dizer que é fome pelo doce da vida. Sempre gostei do amargo, acho que acostumei com o sabor dos dias. Fome que pede saciedade para um amor, resposta para uma dúvida e dúvidas perante minhas respostas. Fome de uma firmeza insana, de braços estáveis. O coração ronca e os lábios desenham um sorriso pequeno, pedinte. Acorda de um silêncio abrasador. E sai alucinado, cheio de aforismos. No meu sonho, ontem, o céu escuro e o sol estavam na mesma linha de visão, o mar e a montanha gelada. Sei lá, acordei crendo que tudo era possível. Acho que vai durar até o próximo sonho.


“Alguém me dê um coração

Que esse já não bate

Nem apanha”

(Alice Ruiz)

5 de dezembro de 2009

De uma esperança

A primeira ofereceu uma atenção bonita e cor-de-rosa, de quem oferecia-se ao sol. O segundo ofereceu companhia. Companhia completa. E foram felizes por 20 minutos. O terceiro ofereceu um sorriso gigante, eterno em poucos instantes. Mas a última... Bem, a última ofereceu mais que isso, nos tropeços de palavras, na certeza de meiguice: ‘foi um prazer. Bom, então... Então até algum dia. Quem sabe, quem sabe a gente ainda se encontra algum dia, em algum lugar’, disse oferecendo esperança. Uma esperança quase de um milagre, que enxergou uma chance no inteiramente improvável dos dias. Ela olhou profundamente aqueles olhos de menina-promessa-amiga-esperança e guardou aquele perfume. Depois foi embora. Mas não mais sozinha. Foi carregando esperança então, até algum dia.

11 de novembro de 2009

Quebra-sorrisos

Começou procurando no quarto. Nada debaixo da cama. Nada atrás dos travesseiros. Abriu o guarda-roupa, cada gaveta... Não encontrou nem um sinal. Saiu a procurar pela casa, vasculhando cada canto. Encontrou algum resquício atrás das portas. Provavelmente impregnado ali naquele dia em que bateu a porta e a raiva. Buscou mais e foi encontrando partes pequenas. Um resto em cima do sofá, de uma bela noite passada. Um pouco no tapete da sala, talvez de um dia em que rolavam pelo chão. Encontrou um pouco na geladeira, preso ao pote de sorvete. E uma quantidade razoável no álbum de fotos e na estante de livros. Depois foi aos discos e encontrou um pouco em algumas melodias antigas, coisas do Chico e do Oswaldo. Manteve a esperança e até encontrou em alguns gritinhos modernos, uma coisa de hopelandic. Foi assim que começou a caça por pedaços de sorrisos inteiros que um dia existiram. Ontem encontrou um risinho raro em uma carta. E hoje em um sonho, prevendo o futuro. Está formando um quebra-cabeça dos pedaços que perdeu. E foram tantos. Quem sabe, um dia aprende a fazer colcha de retalhos de pedaços de sorrisos. Quem sabe, não.

1 de novembro de 2009

Vasto

Ela olhava e percebia tudo passar assim, breve. Sentiu o cheiro da terra, o cheiro do sol. Podia bailar o mundo inteiro com a simplicidade estampada dos coloridos de uma alma recentemente alforriada. Tinha naquela sabedoria silenciosa certa paz, alguma ou nenhuma espera. Compreendeu após as buscas por outros que tudo foi procura desnecessária. A busca era pelo de dentro. Procurou em outros sua própria alma. Desvairo. Ainda busca, mas agora por diversão. Diverte-se nas almas alheias. Faz dos amores, recreios. Sem pecados, com encanto. Um prazer indivisível. Todos são, pois não? O sentir é solidão de cada um. Como ele que prefere os começos, ela que já escreveu o fim. Compartilham então o meio - o presente - aquele sempre ignorado. Ela não consegue fazer com que sintam o amor que divide e assim, pôr fim às dúvidas. Ele não consegue que dividam o medo que sente e assim, dêem o agrado certo. Impossível pedir que alguém sinta o mesmo. Basta que alguém esteja disposto a tomar parte. A lógica se inverte mais tarde. Ou a vida não é isso? Esses desencontros de emoções que nos levam a novas chances no futuro ou frustrações bobas no presente - o que preferirmos. Não existe nada mais tirano do que as expectativas que, inevitáveis como são, tornamos maiores do que nós mesmos, impossíveis. Alimentamos a cada dia a nossa frustração. E somos tolos o suficiente para chorarmos com susto o que plantamos cuidadosamente todo o tempo. Já diria a canção: ‘e tudo que eu criar pra mim, vai me abraçar de novo na semana que vem’. Ela estava na janela espiando a vida lá fora. O cachorro que passeava após conseguir fugir e a alegria da liberdade, imbatível. Os namorados que timidamente conversavam e a beleza dos olhares dos que se querem bem. Os adultos que passavam de carro sem tempo para ser felizes, piedade. As crianças que de cócoras colocavam a plantinha para dormir. Que de súbito em uma corrida sorriam o que alguns levam anos para sorrir. Que tinham cabelos desalinhados e dentes faltando e ainda assim, gargalhavam beleza. Ah, a pureza das respostas das crianças. Ela sentiu um alívio ao pensar que alguém ainda sabia viver. E era ela.

29 de outubro de 2009

A porta

Fulge escuridão. Um medo disfarçado bate à porta. Insiste, insiste. Ela não pode abrir. Não há compaixão que supere o medo. A melancolia acorda, invade com o morno sorriso do que - já passado - não a abandona. Pela janela vê a esperança, cabelos ao vento. Já vai distante. Esperança e passado não se acertam. Quando ele sair daqui, pois sim, ela volta. O sol alto... Cá a escuridão brilha.

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta.


(E agora, José? – Drummond)

22 de outubro de 2009

Passou

Foi tal qual um pequeno susto. Um tropeço e aquele momento: não se sabe o meio – se deve chorar, gritar, fazer manha ou drama. O momento se interrompe pelo abraço, que na verdade era o fim desejado por todos os meios. A tal obscena compulsão por ser amado... Pois bem, então alguém se lembra de dizer: ‘pronto, vai passar. Passou, passou’. E passa! Não sem dor, não sem durar o tempo que deveria. Mas por não duvidar que vai passar e pela pequena paciência da espera, passa. E logo. Pode ser que incomode um pouquinho quando molhar, no começo – uma forma de lembrar o que aconteceu - então vai passar. Fica uma pequena cicatriz talvez, não sem propósitos. É por ela que não se esquece. A dor passa, o momento passa e o choro também. Mas a cicatriz fica. Ainda bem. Assim, ainda dá pra brincar, para pular, para se entregar e confiar, mas não com a tolice de pensar que nada de mal pode acontecer. Pode, pode sim. E efêmera verdade: vai passar. Sempre vai, vai sim.

13 de outubro de 2009

Gente grande

Ele tinha medo de virar gente grande. Não admirava gente grande. Eles não choravam na frente dos outros, mesmo que o coração apertasse muito. Não se divertiam com gargalhadas sempre que a graça assim o pedisse. Não admitiam o desejo pelo último pedaço. Não podiam brincar. Não banhavam na chuva, nem deixavam gente pequena banhar. Podem ficar doentes, eles diziam. Mas tristeza também adoece, ele pensava. Ele não compreendia porque ser feliz era um pecado para os grandes. Gente grande precisava alcançar o sucesso. Lê-se: fazer qualquer coisa de que não goste, em todo o tempo que não tem, para ganhar dinheiro, muito dinheiro e mais dinheiro. Para não gastar com bobagens, vale ressaltar, no tempo que não sobrava. Gente grande não tinha tempo para bobagens. Bobagens? Pois sim. Foi até no dicionário e descobriu: bobagem é sinônimo de criancice. Certamente um adulto inventou isso! Assim, pensou: se criança vive criancice (!) ele era todo bobagem. E não interessava virar alguém indiferente a ele mesmo. Mas a vida prega peças e, sim, ele cresceu. Ficou magoado, chorou, quando no espelho, viu uma gente grande que gosta de criancices. Hoje ele se pergunta como é possível ser gente grande e continuar gostando de ser feliz. Enquanto procura a resposta, ele vai fazendo algumas bobagens. Lê-se: ele vai sendo feliz.

9 de outubro de 2009

Amaria

(...) se angustiava por, mais uma vez, perceber-se deslocada num mundo onde os brinquedos mais divertidos eram formados nas rasas relações de sentimentos frouxos e que, para ela, não tinham a menor graça. Por isso ela sabia que era exceção, ainda era exceção, e já não sentia necessidade de inclinar-se para espiar o amor cotidiano, sempre aquém de si. Sua índole não lhe permitiria. Entrar no jogo seria desvirtuar o que mais importava em sua vida: o amor. Para esta traição de si não havia disposição. É só uma pausa, uma cauterização e um beijinho de quando-casar-sara para Maria continuar sua busca sem arrefecer. Afinal, suas disposições formam um manancial do qual brota os mais voláteis e rarefeitos traços de amor. E da mesma maneira que ela o cultiva em suas relações, necessariamente profundas, continuará buscando-o em sua forma mais pura. Basta passar o tempo da cicatrização, Maria voltará à ativa, e ainda uma vez se deixará entrar na brincadeira-de-cativar-o-coração-de-mariazinha, talvez tenha mais sorte. É assim. Tem de ser assim. De outra forma não poderia usar a denominação “Eu aMaria”!

Por ele,

jotapontoqualquercoisa.blogspot.com

5 de outubro de 2009

Bordada de Flor

“Vai ver era só dizer a ela assim:

-Oi Moça, por favor, cuida bem de mim”


(Menina Bordada)


Apreciava aquele cheiro, a doçura que emanava. Amava o cheiro indiferente à mudança de perfumes. Namorava a aura imaculada. A pureza encontrada. Ela parecia não viver na selva em que ele habitava. E de alguma forma, os passos o conduziram além. ‘É preciso ver além, é preciso sempre ver além’. Os olhos descortinaram-se e não sabia mais serem seus olhos ou a imagem dela. Ela lembrava poesia, “a cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro”. Como alguém mantém candura nesta vida de maldades veladas com tanto bel-prazer? Este ar casto preservara-se para ele? Ela seria dele? Desconfiava, ele era dela. E ela não podia ver ou não se importava. Permanecia com ar de superior independência - independência de fina flor - mesmo tendo a medida exata dele.

28 de setembro de 2009

Em tempo

Precisava saber as horas. Pensava que se atrasara. De alguém ou de algo, não sabia bem. Sentia um pouco de medo. Contudo, era um medo quase bonito. Preferia crer que foi um atraso e manter uma nostálgica certeza de que não foi culpa sua. É mais fácil que admitir que nada acontecesse, embora houvesse tempo. Foi um atraso, e por isso não viveu. Referia-se a coisas bonitas, claro. Num futuro não. Em um passado sim. O que não viveu. Foi lindo o encontro que não aconteceu, o sucesso que não conquistou, a decisão que não tomou, o sorriso que não deu. Esteve em plena distração, em outra vida ou em outra rua. Nove horas, alguém respondeu tão sem afeto. Talvez o outro pensasse não precisar de afeto, era somente uma resposta irrefletida. Entretanto, em sua existência, era uma resolução: coisa de uns anos talvez ou apenas alguns minutos. Não sabia bem. Atrasara-se uma vida.

18 de setembro de 2009

O que procuras?

O que procuras? O que vieste fazer aqui hoje? Procuras romances? Sonho? Verdade? Procuras a mim? Ou a ti? Queres que eu te dê voz? Que escreva por ti? Que diga o que não tem coragem? Ou não sabe? Ou não acreditas? Ou não podes mais? Queres zombar? Queres me diminuir? Ou te diminuíres? Queres que eu escreva o que queres ler? Queres o meu romantismo? Ou meu realismo? Queres duvidar de que seja possível? Ou queres acreditar que seja? Queres os meus olhos? Ou os seus? Pois afirmo que não encontrarás aqui nada além de ti mesmo. É teu olhar no meu que fará destas letras algo de bom – ou ruim. Se vieres com amargura vais sair daqui acreditando ser tudo uma grande ilusão de um coração romântico bobo demais. Se vieres com esperança vais sair daqui acreditando que é possível fazer tudo alguma coisa valer à pena. Se vieres não desejando nada, é com nada que vais sair. Vais entender então, um dia, que é teu olhar que faz o teu mundo. Que amas o que é teu em outro, e a recíproca vale para o ódio. Não é o que está diante de ti, mas o que procuras. A propósito, o que procuras?

14 de setembro de 2009

Vida

“E quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia: fechada, sozinha, perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada”. Caio Fernando Abreu

Sente aqui, vida. Vamos conversar. Tens teus direitos, és mantenedora e a única legitimidade que me permite estar aqui. Mas também devo ter os meus. E se não os tinha, eu os criarei de agora em diante. Pois já chega de brincar com os sentimentos alheios, já chega de tirar o chão quando a brincadeira está ficando boa. Não me ameace mais, por favor. Mal posso imaginar seus olhos indiferentes, frios às minhas lágrimas e meus pedidos. Não me faça acreditar que somos merecedores, nem me faça te desafiar sabendo que vou perder. Ah não, vida, não ria assim de mim. Seja benevolente, o mínimo que consiga, e me deixa conseguir um pouquinho do que preciso, e tens relutantemente me tirado. Não me deixe nesta solidão de sentimentos. Não me olhe assim! Não, não. Não vira as costas para mim. Pode me olhar, então. É preferível ao significado de total indiferença que tuas costas me trazem. Eu gosto de você. Não estou apelando, mas bem que poderia ser. Pode me levantar nos braços, tirar os meus pés do chão, mas me devolva, por favor. Não me deixa pagar pelas escolhas deles. Alivia um instante que seja. Permita-me buscar o ar e, pronto, volto para a sua brincadeira. Esta, a que desde o começo dos dias fui obrigada a brincar. Quando cansar, vida, já pode parar. Eu já quero descer.

6 de setembro de 2009

Reticências

Procura-se alguém que se divirta sem a indecisão do pré e o remorso do pós. Alguém que faça o que quer por escolha, e não vingança ou punição. Alguém que tenha idade para decidir e juízo para responder pelas escolhas. Alguém que se permita o novo, sempre e todos os dias. E que o novo seja o divertido, mas não necessariamente o irresponsável. Alguém que não seja inexperiente para se arrepender, nem experiente demais para desenhar qualquer fim antes do começo. Alguém que seja capaz de sintonizar o coração com o que deseja, e a custo de somente sua vida, ir à busca do que almeja. Alguém que tenha fugido do previsível e tenha conseguido se divertir sem acumular frutos de insensatezes. Mas que tenha guardado para o bem de todos e alegria geral da nação, os melhores frutos das mais tolas loucuras. Procura-se insensatos legítimos, que tenham o delírio por escolha e não consequência. Alguém que tenha descoberto que o grande mistério é não ter segredo algum. Alguém que saiba se divertir, sem culpar ninguém por isso. Alguém que entenda que liberdade permite tudo, mas também não exige depois. Procura-se alguém que queira se divertir para a vida toda, por um dia somente. Ou um pouco mais. (...)

29 de agosto de 2009

Cajueiro

Meu velho, foi um ano difícil. Difícil de saudade. Lembro ainda com a exatidão do momento, nosso último abraço e o cheiro da tua cabeça branca. Ah, meu velho, foi neste ano inteiro o cheiro que mais desejei sentir. Ainda te vejo entrando no quintal ou chegando da feira com a cesta cheia de milho, pirulitos e amor, tudo de graça. Lembro da tua alegria com as frutas que nasciam no teu quintal e teu sorriso sorrateiro, de quem, teimoso, usava o açúcar escondido. Das suas discussões sem fim com ela, que tinham virado gracejo já no fim. A gente dizia e foi provado, era só amor que ela tinha por ti. Fizeste falta. Todos os dias. Levaste a parte de nós que nos unia. Talvez não soubesses, era o nosso único elo. O que temos em comum acordo hoje é tua saudade, nada mais. A tua e a dela, que partiu um pouco depois para aliviar o que nenhum remédio faz ainda pela dor da ausência. Teu nome continua trazendo risos aos nossos lábios, mas agora acompanha sempre olhos lacrimosos. Tenho vivido o amor em silêncio, como disse que o faria. Estou cumprindo minha promessa ao amor que tantas vezes me abraçou. É verdade, e o senhor sabia, onde há ato, não se precisa de palavra. Espero que eles um dia compreendam tua lição, e substituam mágoas por gratidão, por respeito ao amor que sempre nos deste, a despeito de qualquer diferença. Queria hoje sentar na calçada contigo, escutar teus causos, te ver sorrir. Queria pedir a tua benção, pegar na tua mão, sentir os teus dedos, ouvir tua voz, ‘vá com Deus, fia’. Teu amor é o que está presente nas melhores lembranças. Na gratidão eterna por ser teu sangue e na certeza de tê-lo amado muito e, milagrosamente, ser plenamente correspondida. Faz um ano, nosso abraço está guardado. Sinto, meu velho, não tarda muito o dia de entregar-te.

27 de agosto de 2009

Aos meus

Tenho dias lindos, mesmo quietinhos.

Caio F.

Pois bem, aos meus: estou com alguns problemas na configuração do blog. Faz dias que ele não atualiza nas páginas dos caríssimos amigos e seguidores. Vou tentar resolver e já volto. Estarei aqui, no meu silêncio e nas suas palavras. Não demoro, sim?

Com o afeto de sempre, saúde e arte.

18 de agosto de 2009

O que eu queria

Pensei em sair e pedir a qualquer um, algum abraço. Não despreze a necessidade de estar envolta em outros braços. Também não se trata de nada, além disso. Um abraço somente. Sem mais delongas. Que mania de precisar o tempo todo complicar as coisas simples. Um amigo diria que às vezes uma coisa é só uma coisa. Não precisa interpretar, nem nada. Quanto ao abraço, não tem maldade no seu desejo. Aliás, nunca gostei da associação de desejar a maldade. “Você gosta dele?” “Sim, gosto, mas sem maldades”. Maldade? Qual a maldade de querer bem a alguém? E quanto maior o bem, maior a maldade? Não acho coerente. E quem se importa? Hoje, com ou sem coerência, queria mesmo era um abraço. De alguém que soubesse ouvir o silêncio. Alguém saber ouvir as palavras dos outros é dom, alguém saber ouvir o silêncio dos outros é quase magia. Queria um abraço mágico, então. Que não me medisse, muito menos pedisse. Que, em silêncio, estivesse acordado: é um abraço, só isso. Se bem que ‘só isso’ não define bem. “O que ele é seu?” “É meu amigo.” “Só isso?” Eu sempre quero dizer: “só amigo? Mas como assim, só amigo? É para ele que eu escrevo quando estou com insônia, é ele que escolhe presentes comigo, é ele que conhece meus amores e dores. Ele conhece meus segredos, e isso é muito. Como se atreve a usar um ‘só’ ao se referir a ele? Ele é muito, ser amigo é o mais que se pode ser. Pode-se namorar, casar, separar, voltar, amar e/ou odiar; e nem ser amigo. Repito, ser amigo é o mais que se pode ser. Entenda, um amigo.” Mas eu respondo: “só.” Infame divagação de quem usa as palavras para pedir que alguém escute o seu silêncio. Qualquer que seja o preço, qualquer que seja o peso, o silêncio faz-se necessário. Permito-me. Mas eu queria mesmo era um abraço.