29 de novembro de 2008

Sei lá

Sei lá, disfarça um pouco. Entre em casa mais devagar, mexe menos o corpo, ri um pouco comedido. Se quiser transbordar ternura mistura um pouco de aparência de decepção. Queixe-se um pouco, para depois dizer o quanto o dia foi bom. Mas não use o bom, use o mais ou menos. Não elogie tanto sua forma de ver a vida. Reclame, mostre-se sempre um pouco infeliz. Não te ocorreu ainda o quanto felicidade alheia incomoda? Querem te ver feliz também. Destaque para o também. Querem-te feliz depois deles, querem-te completo depois que já estiverem fartos. E se tua prudência te fez chegar até aqui, disfarça. Amam-te, pode ser, mas não pareça mais feliz que eles. Não diz que sua vida te faz feliz. Há tantas mazelas, vai parecer até egoísmo dizer-te feliz. Se já consegues ver sempre os dois lados, e dar valor ao que importa, guarda para ti. Para eles é mais interessante te ver errar. Então coloca uma melancolia no rosto e guarda tua plenitude, que está acima de tantas dores. Se já encontrou sua fórmula, se já sentiu o verdadeiro significado da vida, disfarça. É quase ofensivo conseguir ser feliz, quando eles na mesma condição não conseguem.

26 de novembro de 2008

Ah, isso eu queria.

Eu queria muita arte, muita poesia, muita música. Eu queria liberdade absoluta e responsável por si. Eu queria que todos ganhassem a vida produzindo o que gostassem de fazer. Escrever, desenhar, dançar, cantar, conversar, abraçar, amar. Ou a arte de fazer nada. Queria amor escancarado, declarado. Eu queria que a gente dormisse esperando ansiosamente acordar para começar a labuta do dia seguinte. Reclamações do tipo: ‘eu estou amando demais, nem sei mais o que fazer’. Para terminar naquela gargalhada com ironia fina. Delícia! Ah, eu queria mesmo era morar em um lugar mágico. Em um vale encantado. Ou no coração daquele moço, tanto faz. Isso eu queria. Eu queria que a gente se cumprimentasse com versos. Eu queria não que não houvesse lágrimas, mas eu queria que quando houvesse a gente se unisse abraçados e chorássemos juntos até o som ficar por si só estranho o suficiente para metamorfosear e virasse um coro de gargalhadas. Ah, isso eu queria. Eu não queria acreditar que isso fosse impossível. Eu queria era que mais gente quisesse comigo, para pelo menos ter certeza de que eu não estou sonhando sozinha, e que de alguma forma, a gente já está tentando.