30 de setembro de 2008

Aroma de Maria

Maria sempre ama muito. Intensamente, demasiadamente, excessivamente. Quer presença, quer toque, quer sentir. Maria precisa sentir. Maria sempre leva com o olhar sem pressa a ligeireza das idas e vindas. Quer viver por completo o tempo, o que há e quem há. Maria sabe que ninguém nesta vida estará sempre. Maria sabe que pode amar completamente o tempo que lhe for permitido para depois só levar saudade/amor/certeza, nada de culpa. Maria não tem culpa, porque Maria sempre amou em alto grau. Maria nunca amou mais ou menos. Maria tem a consciência tranqüila. E isso a deixa livre para amar em paz as pessoas que cruzam seu mundo, que gira descontroladamente. Maria cai em algumas voltas, chora o susto; mas depois ri, levanta e continua a viagem. Maria não tem destino, e nem deseja. Maria segue o que acredita: ‘não procura por distantes e frescas fontes, apenas derrama o seu perfume onde estiver’. Maria simplesmente caminha e toca em outros mundos. Sabe que em algum momento, em outra volta, esses mundos se separarão. Mas Maria leva um pouco do aroma deles, e eles levam o de Maria. E de longe Maria sentirá sua fragrância e saberá que partes de si estarão espalhadas por aí. Há certo prazer nisso. Maria gosta da mistura de perfumes que a compõem, parte de todos com quem já de dividiu. Esse aroma é a bússola dos passos Maria. Ela pode senti-lo esteja a que distância for. E Maria precisa sentir.

28 de setembro de 2008

Ela e o frio

Naquele dia ela estava sozinha. Sozinha de todos. Cansada de todos que conhecia, de todos que já havia conversado. Não queria o passado e não se apegava a uma esperança de futuro. Apegava-se ao que tinha: nada além dela mesma, e uma alegria infame e só dela, não partilhável. Não era alegria pelo que havia vivido; não era alegria pelo que estava vivendo e muito menos pelo futuro, ao qual ela não depositava a menor expectativa. Não era uma alegria por estar viva, nem por não estar morta. Estava tão frio. E naquele dia, naquela época, era a única coisa que havia de bom. Estava frio. Não era, estava. Não exigia e ia passar. Ia passar. Vivia isso, embora não acreditasse, nem admirasse. Não interessava se ia passar, se havia passado. Não pensava nem no passado, nem no presente, nem no futuro. Detinha-se a sentir frio. Águas dos céus caíram. Fortes, impetuosas, atraentes. Como talvez ela tivesse sido um dia. Não lembrava, pois não se lembrava do passado. Ela estava sozinha. Não tinha medo, porque não esperava nada além daquele dia. Não haveria arrependimentos, porque não havia espera. Quem não espera não se decepciona. Não se lembrou dos conselhos, porque não se lembrou do passado. Não pensou no presente, porque ninguém estava presente. E não temeu o futuro porque não esperava mais por ninguém. Abriu a janela sozinha. Pulou sozinha. E deixou os pingos, a chuva, e toda aquela água infinita, que não podia controlar nem medir, molhar o corpo, a alma, a solidão, a não expectativa e entregou-se ao que havia de bom: o frio. Quando estava com o corpo molhado, a alma molhada, o frio molhado; fez resoluções – dessas que costumava concluir pra depois ter certeza de que era algo vão. Mas soube que nunca diria para ninguém. Ela era sozinha, não mais só estava. Acima de tudo ela, sozinha, soube de algo. Não entendeu, nem decidiu, nem descobriu. Ela soube que sozinha, como ela sempre fora e agora tinha certeza disso, viveria sozinha o que de bom houvesse. Sem refletir sobre o passado, que não estava mais presente. Nem sobre o presente, por estar ocupada. E muito menos sobre o futuro. Ela viveria o que havia de bom. Ela escolheria, decidiria e não sofreria por ninguém. Não seria insensível, apenas assumiria a solidão que era castiça. Era e seria assim. Ela estaria sozinha e ninguém mediria significância. E se medisse também ela não saberia por que ela estava sozinha. Entrou no quarto, fechou a janela e o frio agarrou-se a ela. O dia passou. O frio também. Ela continua sozinha, mas desde aquele dia, com a alma encharcada. E continua vivendo sozinha o que há. Não é preciso refletir. Estando sozinha pode simplesmente viver. Respinga em outros que não entendem de onde vem aquela distância, aquela alegria não partilhável e aquela introspecção. Disso só sabem as águas, o frio que foi cúmplice e motivo e ela mesma.

17 de setembro de 2008

Superação

Nas Olimpíadas a seleção feminina de futebol deu um espetáculo nos campos. O vôlei também foi bem, a ginástica fez bom trabalho, Cielo se superou. Os atletas superaram limites, recordes, foram bem, não tanto quanto esperávamos, mas bem. Mesmo considerando a superação dos limites e dos extremos se comparados aos que não são atletas, eles eram perfeitos fisicamente. Treinam desde sempre e são formados como campeões, sempre venceram; foram os melhores em dezenas de competições pra chegar ao nível de competir em uma olimpíada. Sim, isso é fato. Mas e as Paraolimpíadas?! O que seria diferente em competir tendo que superar o físico, o mental, o espiritual; tendo que superar tudo?! Não é pra desmerecer os atletas ‘perfeitos’. Mas em nível de superação que jogos deveriam ter sido exibidos?! Pra qual das duas competições deveriam ter ido os melhores repórteres e os narradores estrelas?! Qual deveria ser a abertura mais exuberante?! A abertura dos jogos da seleção do Ronaldinho ou a seleção do Marquinhos (ou pra ficar mais claro, a seleção de futebol de cinco de deficientes visuais)?! Gente! Eles jogam bola, driblam, fazem gol; eles ganharam medalha de ouro não por jogar “menos ruim”. Não! Eles deram show de bola!!! Eles passaram dos limites inimagináveis e ganharam medalha de ouro. E nenhum dos atletas de qualquer modalidade terminou os jogos chorando e lamentando. Não, não!!!! Eles festejavam, respeitavam e agradeciam. Fico tão impressionada com os atletas das Paraolimpíadas a ponto de repensar meus valores, conceitos e a importância que dou pra quem ou o quê realmente merece. Talvez eu tenha entendido algo tortuoso. Mas acho que sentamos pra assistir s jogos errados. A começar pelo fato das Paraolimpíadas nem serem exibidas... E quem sentaria pra ver Daniel nadar (e ganhar nove medalhas, sendo quatro de ouro...) se pudesse assistir Marta jogar?! Marta é ótima, é inegável; mas onde há maior superação?! Na final das Paraolimpíadas Li Yue, uma menina que perdeu uma perna no terremoto de Sichuan, cantou. Ela não tinha uma perna, mas eram Paraolimpíadas, era óbvio o sentido. Então ela CANTOU. E sabe por que a ênfase?! Porque sabemos que na abertura das Olimpíadas em que o mundo inteiro estaria diante da televisão a criança que cantou a música foi substituída por questão de “melhor estética”. Afinal de contas, era preciso oferecer o melhor! E se ela sabia cantar mas não era bonita, era só colocar outra pra fingir cantar. O importante era o que ia ser visto! Podia ser mentira, desde que fosse bonito! Talvez seja por isso. Porque nas Paraolimpíadas não havia estrelas, beldades e máquinas. Eram somente deficientes competindo com outros deficientes. Certo que eles passaram anos, ou talvez a vida inteira lutando contra os preconceitos, às limitações, às lamúrias, à humilhação dos ‘normais’ e se superaram como atletas e seres humanos. Mas e daí?! Quem valoriza isso?! O único conforto e esperança é saber que o mundo onde as pessoas não param para assistir os jogos Paraolímpicos é o mesmo mundo onde os portadores de deficiências continuam buscando força, entusiasmo e ânimo para continuar a superação que independe do que existe ou falta no corpo humano. Fantástico, lindo. Um show!

16 de setembro de 2008

(...)

Não gosto de pseudos. Nem pseudo-poeta, nem pseudo-inteligente, nem pseudo-amigo, nem pseudo-amor...

...ou 8 ou 80. Os outros 71 não me interessam...