29 de novembro de 2008

Sei lá

Sei lá, disfarça um pouco. Entre em casa mais devagar, mexe menos o corpo, ri um pouco comedido. Se quiser transbordar ternura mistura um pouco de aparência de decepção. Queixe-se um pouco, para depois dizer o quanto o dia foi bom. Mas não use o bom, use o mais ou menos. Não elogie tanto sua forma de ver a vida. Reclame, mostre-se sempre um pouco infeliz. Não te ocorreu ainda o quanto felicidade alheia incomoda? Querem te ver feliz também. Destaque para o também. Querem-te feliz depois deles, querem-te completo depois que já estiverem fartos. E se tua prudência te fez chegar até aqui, disfarça. Amam-te, pode ser, mas não pareça mais feliz que eles. Não diz que sua vida te faz feliz. Há tantas mazelas, vai parecer até egoísmo dizer-te feliz. Se já consegues ver sempre os dois lados, e dar valor ao que importa, guarda para ti. Para eles é mais interessante te ver errar. Então coloca uma melancolia no rosto e guarda tua plenitude, que está acima de tantas dores. Se já encontrou sua fórmula, se já sentiu o verdadeiro significado da vida, disfarça. É quase ofensivo conseguir ser feliz, quando eles na mesma condição não conseguem.

8 comentários:

Qualquer Um disse...

Cara Maria,

Texto bom é texto-espelho. Até quando não gostamos do que vemos, e culpamos ao espelho:->
Texto seu é espelho de crital. destes da Rainha-Má, que não mentem.
Será que alguém consegue "guardar a plenitude"?
1ab
edu

Sidney Andrade disse...

BELO TEXTO, MARIA. TÃO BELO QUE ME REMETEU A UM POEMA DE ALBERTO CAEIRO:

xxi

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

QUE SEJAMOS TODOS NATURAIS.
BEIJO.

Mário Sioli disse...

Oi Maria, mais uma vez estou aqui, não para privilegia o seu blog, mas para ser privilegiado por ele, pois quem recebe é que sai com mais. Aqui sou um nº., um nome, uma idéia... Mas contra partida você para mim pelo menos é uma filosofa que questiona que não se agrada pela mesmice, que entendi que o mundo pode dar mais, do que a tv anuncia. Sim queremos, sim queremos paz, sim queremos cara melancólica, se isso afastar de nos a inveja, queremos quem saiba viver do nosso jeito sem temer que na aconteça com quem quer que seja e onde quer que esteja.
Tudo isso para te dizer que o amor é algo que abraça a todos e não tem como fingir, quando ele acontece dá na cara, que algo novo está em você e não adianta fazer outros tipos de cara, pois você já está mais que contaminado, rss
Parabéns pelo texto e pelo blog.
Beijos

Gabi disse...

belíssimo
fico sem palavras.

Jana disse...

Danem-se eles!

Beijoca Maria querida!
Um belo texto, outra vez.
:)

SAM disse...

Maria, querida

Sem ser hipócrita, não são todos assim. É verdade para a maioria a nossa volta, infelizmente. Mas, graças a Deus, não para alguns. Quando estou triste, a felicidade do outro me deixa tão melhor... É como se o outro me passasse um pouco desta energia boa.E sei que quando estou feliz também consigo transmitir um pouco desta energia para o outro ( esta , com certeza, porque elas dizem). E nunca o meu Eu foi diferente no sentir e agir. Mas vejo a exatidão do seu texto aplicada, comumente ,em relação a mim...Até se acostuma... Quando não nos magoa. Por isto, a prudência é necessária, querida. Porque a nossa naturalidade na expressão de felicidade, com certeza ofenderá a alguém.

Assisti uma palestra num templo taoísta ( inclusive com aplicação em relação a nós mesmas , para que não gere frustrações em nossas expectativas)que dizia que o ideal seria não imaginarmos a casa, mas já estar dentro dela. Não sei explicar direito....Era mais ou menos por aí...


Belo texto, querida! Verdadeiro!

Grande beijo!

Pavón disse...

Esconder a própria felicidade deveria ser crime, é quase que privar o mundo de sorrisos e isso me deixa triste. Mas entendo o que dizes, uma vez que a felicidade alheia que é um crime, sorrisos são tidos como deboxes e um mero pulo de alegria deve ser castigado com chicotadas de tristeza. Enquanto guardarmos nossa alegria para fugir das chicotadas, o mundo será sempre assim, um mar de tristeza...

E "Plageando" a frase de Luther King, o que me preocupa nao é a tristeza dos infelizes, mas a falta de sorrisos de quem pode sorrir... mesmo sem dentes.

beijos

silvioafonso disse...

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Pára! Por favor, pára e te calas. Não faças de mim a tua sombra ou o melhor que tu poderias ter sido. Não quero fingir maldade se o sorriso me dói o queixo e os meus olhos se abrem experto. Não quero demonstrar infelicidade se o sol me nasce no peito e a noite cala os meus pesadelos. Não, por favor, não fales mais. Sejas tu, a tristeza que dizes e eu a alegria que te refaz. Não falas, por favor, não fales mais. Aquietas a tua cabeça no meu peito que pulsa o teu jeito e durma a tua vida em paz.

silvioafonso


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