10 de novembro de 2008

Ele

Ele bem acordava e pensava em ontem e no amanhã. Dificilmente pensava no hoje, muito menos no agora. Lembrava mais do que aconteceu e do que aconteceria pelo que aconteceu. E enquanto o dia começava, ele estava ocupado com o que já passou ou no que nem sabe se viria. Era sempre assim. Por isso ele sempre levantava com uma mágoa, um arrependimento e uma frustração. Impressionante como o brilho do sol trazia lembranças, mas não o frescor. Era o que viveu/viveria, não o que estava vivendo. Era capaz de lamentar pelo que não viveu e estar distraído o suficiente para o que poderia estar vivendo. Mas um dia, no futuro, quando o hoje fosse passado, então o que-poderia-estar-vivendo-e-não-está teria espaço em sua mente. Estava sempre magoado com o passado e preocupado com o futuro. Nunca estava livre para ele mesmo, ou para outro alguém. Até que abriu os olhos e se deu conta disso. Tentou lamentar pelo passado, mas não deixou a fórmula se repetir. Tentou imaginar como seria o futuro com essa nova conduta, mas foi interrompido pelo gosto estranho de presente, que nunca sentira. Gosto de começar, de permitir-se, de aceitar. Talvez nunca tenha sentido esse gosto antes porque, afinal, sempre esteve ocupado demais com o inexistente.

11 comentários:

Sidney Andrade disse...

Quem lhe deu a permissão de me estar definindo assim, em rede mundial? Humpf...

As marias e suas manias de adivinhar... são quase inxiridas, não fosse o caso de serem expontâneas.

Beijo

j.qualquercoisa disse...

Seria tão ordinariamente recompensador viver o agora. Mas o que nos resta é apenas a iminência do momento.
Pois o passado se vai, o futuro ainda não veio e o presente, já não existe: virou passado.

afago

Gabi disse...

quantos de nós vivemos como ele não é mesmo?!

Clarissa Santos. disse...

Talvez ele esteja certo.

Belo blog, moça!
Parabéns! :)

:*

lizandraestudandopsicologia disse...

lindo!

breno disse...

nossa.............................

mahilda disse...

Como consegue descrever-me tão espontãneamente...rsrsrsrrs.Cada dia me deslumbro mais com seus textos.cheiro maria...maria...que dom.

The Scientist disse...

eldinha...
e como se vive o presente?

Thalita disse...

impressionante teu dom de descrever coisas tão presentes no dia-a-dia de tds nós....assumo que tbm eu sou ele repetidas vezes...

Desnuda disse...

Maria, você de um jeito simples desvenda algo que nos ocorre e passa batido. Que menina, heim? Ah, minha fadinha....


Beijos

Patricia C. disse...

o medo de acordar tarde é latente na minha vida.