27 de outubro de 2008

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Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.



Lya Luft



Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie

3 comentários:

Gabi disse...

mas é justamente quando achamos que não somos mais capaz que nossa vida muda e nosso coração se renobrece

Desnuda disse...

Que texto de Lya! Aliás como todos que leio dela... Sempre nos envolve profundamente com suas palavras. Obrigada pela partilha, Maria!



Carinhoso beijo.

lyani disse...

Lya fala fundo com agente!
Adoro!
Bjosss