28 de setembro de 2008

Ela e o frio

Naquele dia ela estava sozinha. Sozinha de todos. Cansada de todos que conhecia, de todos que já havia conversado. Não queria o passado e não se apegava a uma esperança de futuro. Apegava-se ao que tinha: nada além dela mesma, e uma alegria infame e só dela, não partilhável. Não era alegria pelo que havia vivido; não era alegria pelo que estava vivendo e muito menos pelo futuro, ao qual ela não depositava a menor expectativa. Não era uma alegria por estar viva, nem por não estar morta. Estava tão frio. E naquele dia, naquela época, era a única coisa que havia de bom. Estava frio. Não era, estava. Não exigia e ia passar. Ia passar. Vivia isso, embora não acreditasse, nem admirasse. Não interessava se ia passar, se havia passado. Não pensava nem no passado, nem no presente, nem no futuro. Detinha-se a sentir frio. Águas dos céus caíram. Fortes, impetuosas, atraentes. Como talvez ela tivesse sido um dia. Não lembrava, pois não se lembrava do passado. Ela estava sozinha. Não tinha medo, porque não esperava nada além daquele dia. Não haveria arrependimentos, porque não havia espera. Quem não espera não se decepciona. Não se lembrou dos conselhos, porque não se lembrou do passado. Não pensou no presente, porque ninguém estava presente. E não temeu o futuro porque não esperava mais por ninguém. Abriu a janela sozinha. Pulou sozinha. E deixou os pingos, a chuva, e toda aquela água infinita, que não podia controlar nem medir, molhar o corpo, a alma, a solidão, a não expectativa e entregou-se ao que havia de bom: o frio. Quando estava com o corpo molhado, a alma molhada, o frio molhado; fez resoluções – dessas que costumava concluir pra depois ter certeza de que era algo vão. Mas soube que nunca diria para ninguém. Ela era sozinha, não mais só estava. Acima de tudo ela, sozinha, soube de algo. Não entendeu, nem decidiu, nem descobriu. Ela soube que sozinha, como ela sempre fora e agora tinha certeza disso, viveria sozinha o que de bom houvesse. Sem refletir sobre o passado, que não estava mais presente. Nem sobre o presente, por estar ocupada. E muito menos sobre o futuro. Ela viveria o que havia de bom. Ela escolheria, decidiria e não sofreria por ninguém. Não seria insensível, apenas assumiria a solidão que era castiça. Era e seria assim. Ela estaria sozinha e ninguém mediria significância. E se medisse também ela não saberia por que ela estava sozinha. Entrou no quarto, fechou a janela e o frio agarrou-se a ela. O dia passou. O frio também. Ela continua sozinha, mas desde aquele dia, com a alma encharcada. E continua vivendo sozinha o que há. Não é preciso refletir. Estando sozinha pode simplesmente viver. Respinga em outros que não entendem de onde vem aquela distância, aquela alegria não partilhável e aquela introspecção. Disso só sabem as águas, o frio que foi cúmplice e motivo e ela mesma.

2 comentários:

The Scientist disse...

uma daquelas coisas que a gente não sabe explicar, mas a gente sente:
depois que te conheci tive a sensação de que jamais estaria sozinho.
e isso é muito forte!
(ida e volta!)

:) disse...

Maria, você conseguiria entender que se a gente sentasse pra conversar numa mesinha de bar, teríamos infinitas afinidades?

Tudo bate, tudo coincide.

Você é um reflexo do que penso!

É uma bela!

Bjim
Ke