12 de abril de 2014

Desaprender

Eu queria escrever um texto bem bonito sobre as coisas que eu aprendi. Queria contar sobre as pessoas que conheci nos últimos anos e agora fazem parte dos meus sonhos. Queria explicar que quando as pessoas entram nos meus sonhos eu entendo que ‘agora fazem parte’. Queria contar sobre o que a saudade é capaz de fazer. E sobre o poder da distância de redimensionar as coisas. Queria detalhar todos os sabores deliciosos que experimentei. Queria detalhar minhas descobertas. Queria contar sobre todas as muitas viagens que fiz. Queria em especial falar de uma casinha azul que não sai a minha cabeça. Queria falar que aprendi o que é amar uma pessoa. Talvez até tentasse explicar como fiquei ao mesmo tempo muito seletiva e menos exigente. Mas nada do que eu aprendi valeu o que eu desaprendi. Faz algum tempo que tudo gira em torno de desaprender. Tenho desaprendido muito. Não me surpreendi tanto quanto pode parecer. Cresci ao longo dos meus vinte e muitos anos. Tenho experiências, tenho gestos novos. É claro que aprendi muitas coisas. Mas não mais do que desaprendi. Não sei mais tanta coisa. Estou diariamente em um movimento de me esvaziar, de esquecer o ofício para, quem sabe, recomeçar. Ou só para caminhar mais leve mesmo. Tenho hoje a liberdade de adaptar-me. Esqueci, felizmente, a teimosia de não mudar. Caminho aberta para aprender o que vier. E mais aberta ainda para desaprender o que não me faz bem ou não serve mais. Esqueci que para ser forte preciso parecer forte. Eu não preciso e não pareço. Aprender coisas novas pode fazer de mim uma pessoa esperta, mas hoje me ocorre que desaprender, às vezes, faz de mim uma pessoa melhor. 

1 de fevereiro de 2014

Vinte e nove

Passei três longos anos em solidão de alma e companhia. Experimentei o sonho que não sonhei. Viajei, morei sozinha, fui independente em todos os sentidos, troquei de cidade, de turma, de emprego e de nome. Sabe o começar de novo? Tantas coisas aconteceram. Conheci muita gente, muitos lugares e agora consegui entender a distância. Vivi dias e dias tontos entre tanta saudade e tanta novidade. Não sabia se queria mais o passado ou o futuro. Parece clichê, mas entendi que importante mesmo é o presente. Experimentei novos sabores e descobri que novos sabores têm mais a ver com permissões do que oportunidades. Eu precisava viver, precisava me ver, precisava enxergar o mundo, precisava entender. Conheci figuras fantásticas e outras tantas detestáveis. Longe de tudo e de todos eu era exatamente o que parecia ser. A falta de referências me espantou e libertou ao mesmo tempo. E sendo livre decidi me desconstruir. É tão espetacular e assustador ver toda sua vida de fora. É tão tranquilizante se perdoar pelo passado, se perdoar pelo futuro. É impressionante observar como as pessoas cometem sempre os mesmos erros - nos mesmos roteiros - simplesmente porque não aceitam que podem sair deles. De fora é tudo tão simples. A gente ri do que antes doía e aí a gente percebe que cresceu. Cresceu porque se permitiu a distância necessária para julgar sem condenar. Cresceu porque entendeu que o perdão só faz bem mesmo a quem perdoa. O tempo passou e a solidão de companhia acabou. A de alma eu não sei se um dia passa. Por mais que encontre conforto e afinidades, estou sozinha em meu sentir e não há dor nisso, há resignação de quem aprendeu a ser feliz sem cobrar nada de ninguém. Eu recomecei, descobri tudo que gostava e não gostava, queria e não queria, podia e não podia. Agora encerro esse período fazendo tudo que jamais imaginei fazer: largo tudo. Junto o saldo, enorme, de todas as loucuras que não cometi na minha pacata vida e deixo tudo para trás. Vou procurar outros caminhos, outras formas de caminhar. A liberdade é toda minha. Não tenho apoio sincero e isso é um alívio. Se der tudo errado, a culpa é toda minha. Se der tudo certo, também.